Crítica de estreia: AUSTRÁLIA

Baz Luhrmann dirigiu apenas Vem dançar comigo (1992), Romeu e Julieta (1996), Moulin Rouge (2001) e Austrália (2008). Apesar da curta carreira, o diretor alcançou notoriedade com o controverso musical de 2001. Com Austrália a fórmula se repete: o filme certamente dividirá opiniões.

Nicole Kidman interpreta Sarah Ashley, uma aristocrata inglesa que vai a Austrália atrás de seu marido para finalizar a venda de uma grande propriedade no país em 1939, pouco antes do começo da Segunda Guerra Mundial. O que ela não espera é encontrar o marido morto e ter que assumir o controle da propriedade e de seu imenso rebanho bovino. Com a ajuda do Capataz (Hugh Jackman), Ashley enfrentará toda sorte de emoções nesta terra mágica e desconhecida. As referências ao Mágico de Oz não são mera coincidência ou gosto do diretor.

O iníco do filme causa certo estranhamento. Desde a entrada de Nicole em cena até a chegada à fazenda, há um tom debochado no filme. Muitas piadinhas sem graça num curto espaço de tempo e uma filmagem que incomoda a audiência. As interpretações também reforçam essa má impressão. Nesse ponto, pensei que o filme seria todo dessa forma caricatural, o que não me agradaria. No entanto, esse deslize logo seria superado por uma abordagem mais séria.

E seriedade o filme possui de monte. Desde o começo é possível notar que Luhrmann deseja transformar Austrália em épico. A exaltação de uma pátria, a apresentação dos heróis com respaldo moral e a proposição de um conflito cumprem sua parte na narrativa. No plano técnico, a filmagem de amplas paisagens consegue o tom épico, apesar de o diretor exagerar um pouco em sua velocidade. Dessa forma, começamos a enxergar o filme como uma produção grandiosa, tanto a partir do roteiro quanto do apuramento técnico.

Quem se lembra de Moulin Rouge, pode ter uma ideia de que Luhrmann dá valor à estética de seus filmes. Em Austrália, porém, a fotografia não é exagerada como no musical, mas contida como em Benjamin Button. As paisagens retocadas, o por-do-sol criando os efeitos visuais por trás dos atores e os imensos desertos já apontam as qualidades visuais da película. Há duas cenas que merecem destaque. A grande boiada correndo em direção ao abismo é um dos momentos mais belos e intensos do cinema recente. Acredite, não é preciso gostar de bois para apreciar a beleza que emana da tela. E o ataque japonês ao norte da Austrália também salta da tela, não dura muito, mas as cenas de explosões em volta do Rei George (David Gulpilil) estão impregnadas de beleza e simbolismo.

Apesar da inconstestável grandiosidade do fime, há vários aspectos que o comprometem, a começar pelas atuações. Os dois únicos momentos que Nicole Kidman consegue se sobressair são sua primeira tentativa de tocar a boiada e a história de Oz que conta ao pequeno Nullah (Brandon Walters). De resto, Kidman cai na normalidade. Hugh Jackman também não decepciona, mas penso que ele está longe de merecer a badalação que o envolve hoje em dia. O restante do elenco também se adequa ao figurino.

Outro ponto controverso é a própria história da película, que pode não agradar muita gente. Aqueles que não apreciarem a temática terão que aguentar quase três horas enfadonhas, assistindo somente à sucessão de imagens bem trabalhadas. Isso não sustenta o gosto da audiência. Além do mais, a grandiosidade que o filme precisa para ser visto como épico sufoca as possibilidades de a dramaticidade aflorar. Os personagens acabam sendo menos aprofundados e o drama fica em segundo plano, deixando aquela sensação de “Ok, é muito bonito, mas eu chorei mais no Marley&Eu”.

Então, se o narrador do filme nos diz que o importante de se contar uma história é sua razão de ser, cabe perguntar qual a razão de se contar a história de Austrália. Por que Baz Luhrman gastou 165 minutos e 120 milhões de dólares para contar essa história? Ora, porque o diretor australiano usou seus atores australianos para fazer um elogio à sua própria terra, tornando a Austrália o palco de poema épico moderno. Rei George é símbolo das raízes aborígenas do país, Ashley é a aristocracia colonizadora e o Capataz é a parcela da população que fica às margens das regalias da elite política. De qualquer modo, nós brasileiros podemos aprender algumas coisas com o filme.

Justamente por isso Austrália dividirá opiniões. Épicos agradam a alguns e desagradam a outros. Até hoje, ler a Ilíada e Odisséia continua um grande desafio para muita gente.

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