Crítica: SOBRE MENINOS E LOBOS (2003)

Sean Penn, em uma forte cena do filme
Contando com clima extremamente realista e uma direção brilhante de Clint Eastwood, Sobre Meninos e Lobos nos mostra mais que uma história de suspense policial ou drama. O título em português já revela o grande potencial do filme, pois nos remete a um ensaio sobre a violência, a sociedade e a individualidade de cada homem. Lobo, menino ou ambos.

Jimmy Marcus (Sean Penn) perde a filha em um assassinato e se empenha em fazer justiça com as próprias mãos. Sean Devine (Kevin Bacon) é um dos policiais que investiga o caso e Dave Boyle (Tim Robins) é o principal suspeito do crime. O elemento crucial na história é que os três homens eram amigos numa infância marcada pelo abuso sexual que o personagem de Tim Robins sofrera.

Não é difícil notar o realismo e a verossimilhança do filme. A fotografia é contida, o bairro suburbano não é idealizado nem repleto de tipos, a iluminação é a mais natural possível. Quando assistimos a Sobre Meninos e Lobos, temos a impressão de que estamos olhando pela janela de nossa casa e vendo nosso bairro. Não há um clima sombrio como em Gotham City, alegre como em Mamma Mia!, ou mesmo idealista como em Benjamin Button. Tudo no filme, desde as atuações até a caracterização do espaço, nos remete a um visual cru e adulto, criando uma inquietante proximidade entre realidade e ficção.

Não é fácil pensar em um tema principal que seja abordado na película. Sob um prisma sociológico, surge a questão da violência. O abuso sexual do menino Dave Boyle é o primeiro a saltar aos olhos. Magistralmente interpretado por Tim Robins, o personagem carrega as marcas dessa violência até a vida adulta. Boyle não consegue se manter empregado, tem surtos de paranoia ou violência e se mostra um eterno menino que ainda cairá nas mãos dos lobos. Tim Robins consegue esmiuçar cada detalhe desta personalidade perturbada e complexa, desde olhares até pequenos gestos, o que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante em 2004. Outro ponto a ser considerado é a espiral de violência que não se esvai de forma alguma. A geração de adultos fora e continua sendo violenta e os adolescentes do presente seguem pelo mesmo caminho. De certa forma, a sombra do medo paira sobre a vizinhança do filme, garantindo que a violência se perpetue.

Sob um prisma psicológico, podemos notar as relações entre meninos e lobos, tão acertada no título em português. A primeira vista, pode parecer que os os meninos e os lobos da história já estão determinados. Porém, o grande trunfo do filme é não cair no maniqueísmo. Jimmy Marcus, mesmo adulto e pai de família, anda por aí com sua ganguezinha espalhando autoritarismo pelo bairro como um adolescente. Dave Boyle é o eterno menino preso à chaga da infância, mas que corre de si mesmo, seu maior lobo. Ainda sim ele encontra tempo para ser o predador da própria esposa.

E aqui temos outro tema interessante, as esposas. Sobre Meninos e Lobos é, de certa forma, um filme sobre homens que acaba refletindo sobre mulheres. Ora são sensíveis e espertas, ora são ingênuas. Às vezes conseguem entrar nas mentes de seus maridos, às vezes são tolas e inocentes. Mas no fim, descobrimos que cada casal se completa perfeitamente em suas fraquezas e em suas forças; não havia apenas homens, mas casais que se espelhavam a si mesmos. Os meninos eram casados com as meninas.

Sean Penn, que também levou um Oscar de melhor ator em 2004, dá um show à parte. Seu personagem, bem a meu gosto, é esférico. Ele possui múltiplas facetas a serem explorados e Sean Penn viaja por todas. O jeito de bad boy crescido e autoritário é o pano de fundo do personagem, que passa por momentos de sofrimento, de raiva e de pena. Uma cena em que se pode notar o talento com que o ator compôs o personagem é quando Jimmy chora a morte da filha junto a Dave Boyle, que pensamos ser o assassino. Acredite, é de arrepiar.

Sobre Meninos e Lobos não é um filme para qualquer um. Não há finais felizes, a ficção é nua, crua e assustadoramente parecida com nossa realidade. Prova da competência e da sensibilidade do diretor Clint Eastwood, este filme merece ser visto por todos sob a ótica da vida em sociedade. Um verdadeiro ensaio sobre nós mesmos.

5 Comentários

Arquivado em Crítica

5 Respostas para “Crítica: SOBRE MENINOS E LOBOS (2003)

  1. Ariane

    “Sobre Meninos e Lobos” é um filme fantástico, sóbrio e realista!
    Tendo em seu elenco: kevin Bacon, Tim Robins, Sean Penn e como diretor: Clint Eastwood.. podemos de cara deduzir que a produção é realmente uma obra prima..que na simplicidade de cenário fotografia e filmagem nos traz a excelente intrepetação de cada ator desde os homens citados acima como de suas mulheres que nada deixaram a desejar ,mas pelo contrário fizeram corretamente seu trabalho..uma o tipo mulher desconfiada do marido de certa forma medrosa enquanto a a outra teve a capacidade de não deixar que seu marido enlouquesse por algo que tinha feito.
    “Sobre Meninos e Lobos” é um filme que merece ser visto e admirado!!

  2. C. Vinícius

    Cara, conheci seu blog agora e achei legal. Esse seu texto acerca de “Sobre Meninos e Lobos” é muito interessante, apesar de eu achar que você falou pouco (muito pouco, na verdade) sobre o trabalho em si do velho Clint como diretor. Mas enfim, o resto está muito bacana: bem escrito e argumentado. Parabéns!

  3. Olá!

    Vinícius, eu tenho esse jeitão de filósofo mesmo. Quando eu montei o blog, pensei em crítica de cinema dando um enfoque mais reflexivo e menos técnico sobre direção, roteiro e esses aspectos que várias críticas costumam abordar. Eu penso que, quando elogio nuances de um filme, o trabalho do diretor, por exemplo, está sendo analisado, já que é ele quem comanda o trabalho.

    Mas valeu por suas considerações, vou ponderar sobre elas.

    Abração

  4. Pingback: Crítica: GRAN TORINO (2008) « O Embasbacado

  5. machado

    excelente comentario.

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