Crítica: A TROCA (2008)

"Será que é meu filho?" Será que é um bom filme?

"Será que é meu filho?" Será que é um bom filme?

Conheci o trabalho do diretor Clint Eastwood através do maravilhoso As Pontes de Madison, um de seus filmes mais sensíveis e intimistas. Em A Troca, o diretor não espera lágrimas da plateia,  mas indignação e revolta. Assistimos a uma efusão de sentimentos que vão desde a pena até a raiva, da compaixão por Christine Collins até o ódio às instituições. Dirigida pelo talentoso Clint, Angelina Jolie dá vida a essa história real, em um papel moldado para o Oscar. Pena que a condução do filme não alcança grandes resultados.

Christine Collins é mãe solteira em plena década de 1920, quando a revolução feminista ainda estava em sua fase embrionária. Um dia, Christine precisa trabalhar até mais tarde e, ao chegar em casa, não encontra seu filho, Walter. Depois de meses do desaparecimento, a polícia de Los Angeles encontra o menino e o devolve a sua mãe. Só há dois problemas: quase toda a instituição policial é corrupta e a criança devolvida à Christine não é seu filho. Nesse ponto, a mãe começa uma jornada contra o polícia para comprovar que não lhe devolveram seu menino, mas alguma outra criança.

Na primeira metade da película, assistimos a uma mulher submissa a seu tempo tentando comprovar o erro da polícia. Christine chora, grita e encarna o esteriótipo da mulher histérica, numa clara jogada para que o papel pudesse alcançar uma densidade dramática digna de premiações. Angelina Jolie cumpre esse seu papel com maestria, carregando essa parte da trama. Nessa etapa, somos apresentados a toda sorte de cinismo e má-fé das instituições públicas, que insistem em dizer que a criança devolvida é o filho de Christine enquanto a mãe nega o fato com todas as suas forças. Há o tamanho absurdo de um médico insinuar que a protagonista não sabia mais ser mãe, em uma das cenas mais  irritantes (mas também manjada) de A Troca. Quando a teimosia de Christie começa a incomodar demais, ela é jogada em um sanatório, onde descobre várias outras mulheres internadas apenas por serem “problemas” para as forças policiais.

A um primeiro olhar, podemos notar um extremo machismo nas instituições da época, que a todo custo tentavam subjulgar as mulheres. Porém, indo mais fundo, na linha de pensamento de Foucault (sugiro a leitura de “Vigiar e Punir” e “A História da Loucura”), percebemos que o filme denuncia o autoritarismo e a arbitrariedade do Estado frente aos cidadãos. A polícia corrupta funciona como um organismo que tenta se manter a todo custo, utilizando-se de seu poder para manter as coisas exatamente como estão. E aí, aflito leitor, você não tem a impressão de conviver com essa realidade?

Da metade para o final, o filme muda de abordagem. Uma trama paralela começa a mostrar a investigação de um assassino de crianças (o que pode explicar muitas questões…) e Christine, durante sua estada no sanatório, transforma-se em uma batalhadora que para de chorar e resolve ir às forras. Com a ajuda do reverendo Gustav Briegleb (o ótimo John Malkovich), a mãe denuncia os abusos à mídia e à justiça, iniciando a caça às bruxas das instituições corrompidas. Nesse ponto, o filme poderia ser fechado com chave de ouro, uma vez que já havia uma explicação plausível para o desaparecimento de Walter e a justiça já agia contra os malfeitores da história. Porém, na ânsia de emocionar a audiência com as situações vividas por Jolie, Clint Eastwood alonga o filme em pelo menos meia hora quase vazia de sentimentos autênticos. O tiro sai pela culatra.

De resto, o resultado é agradável. A caracterização de época é fiel e bem feita, a trilha sonora consegue fazer par com as situações propostas pelo filme e a fotografia é bem realista, mas um tanto escura, bem ao estilo dos filmes do diretor.

Assim, A Troca pode servir como um ótimo elemento reflexivo, mas não como um drama autêntico. Angelina Jolie convence no papel de Christine, que é explorado com exagero pela direção, na tentativa de tocar a pelateia com todas as emoções possíveis. Longo demais e com um trabalho não mais que mediano na montagem, o filme não consegue manter seu ritmo até o final e entrelaçar as duas tramas paralelas. O resultado sai mecânico demais. Gostei, mas não amei.



3 Comentários

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3 Respostas para “Crítica: A TROCA (2008)

  1. Achei esse bem fraquinho, o pior do Clint Eastwood. Apesar da boa atuação da Angelina Jolie, acho que ela merecia ser lembrada muito mais no ano passado por “O Preço da Coragem” do que por esse agora.

  2. Talvez não seja o pior do Clint, mas há vários que são notadamente melhores “Cartas de Iwo Jima”, “As Pontes de Madison”, “Sobre Meninos e Lobos”.

    Vamos esperar por Gran Torino agora…

    Abração,
    Renan

  3. O filme é muito bem acabado, com excelentes direção de arte, cenários, iluminação e trilha sonora. Mas seu ponto forte é a bela interpretação de Angelina Jolie. Na pele de uma mulher forte, desacreditada e lutadora, Angelina imprime veracidade à personagem. Um grande papel, que ela soube aproveitar muito bem.

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