Crítica: DÚVIDA (2008)

Precisa falar alguma coisa?

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O diretor de Dúvida, John Patrick Shanley, ficou 18 anos afastado das telas de cinema desde seu último trabalho Joe Contra o Vulcão (1990). Em 2008, Adaptando o filme de  seu próprio trabalho no teatro, o diretor nos traz uma história densa e poderosa, que certamente tocará fundo aqueles que sentirem as indagações de seu trabalho. Com um elenco formidável, inteiramente indicado ao Oscar, a película se sustenta por suas atuações e pelo poder do roteiro, mas peca na condução da narrativa.

Na década de 1960, os ares de mudanças nas sociedades norte-americana e mundial já davam sinais de crescimento. Os ventos da modernidade se tornavam cada vez mais poderosos, incomodando o conservadorismo da Irmã Aloysius (Meryl Streep), numa das metáforas mais belas do filme. Nesse contexto, uma escola religiosa é palco do enfrentamento entre o progressista Padre Flynn (Philip Seymor Hoffman) e da conservadora Irma diretora da escola, que suspeita que o sacerdote mantenha relações impróprias com o primeiro estudante negro da escola, Donald Miller (Joseph Foster). No meio do turbilhão de acontecimentos, está a jovem e inocente Irmã James (Amy Adams) que, sem perceber, alimenta as suspeitas de sua superiora.

Dúvida é um filme intenso e controverso, a começar por seu título auto-explicativo. Tudo na tela e no roteiro é construído para criar dúvidas. A filmagem é ambígua, o clima é frio e distante, os ambientes são recriados com maestria de época e com um sentimento de… dúvida! Aliás, o filme parece ser de uma outra época, provavelmente pelo tempo que o diretor ficou parado em sua carreira. A sensação de que há alguém observando tudo a todo momento está sempre presente, talvez a mão de que fala Padre Flynn em um dos seus sermões. Cada personagem revela, aos poucos, informações que podem alimentar um ou outro lado das suspeitas. Assim, do começo ao fim, o filme é construído não para apresentar soluções, mas dúvidas, forçando a audiência a construir sua própria imagem do duelo entre Flynn e Aloysius. Alguns adoram esse tipo de abordagem, outros a abominam, e aí residem as controvérsias a respeito desse trabalho de John Patrick Shanley.

Além da dúvida, há vários outros temas sobre os quais o filme versa. Há o constante duelo entro o novo e o velho na década de 1960, que atingirá seu ápice em 1968, o ano que não acabou. É nessa época que o movimento negro começa a ganhar mais força, que Martin Luther King se torna um ícone mundial e que a escola aceita Donald Miller como seu primeiro estudante negro. A pedofilia é, logicamente, outro tema para se pensar. Seria Padre Flynn apenas um ser com muita compaixão e inocente das acusações? Ou estaria o sacerdote se fazendo de acolhedor para seduzir o estudante? Há dúvidas. E quanto às insinuações da mãe do garoto sobre homossexualidade? Será que isso realmente diminuiria o problema da suposta relação de pedofilia? De qualquer forma, a mãe tenta apaziguar sua consciência como pode.

Só não há dúvidas sobre o poder das interpretações, que são o carro-chefe do filme. Amy Adams, indicada ao Oscar de Melhor atriz Coadjuvante, faz um grande trabalho na composição da inocente Irmã James, que ganha mais consistência ao longo da película. Viola Davis, também indicada pela mesma categoria, interpreta magistralmente a mãe de Donald Miller e compõe uma das cenas mais emocionantes e inquietantes do filme.

Meryl Streep e Philip Seymor Hoffman travam um duelo interpretativo que há muito não se via. Com a ajuda de um roteiro bem escrito, cada fala de seus diálogos faz tremer a realidade a suas voltas. A cada segundo de filme, ambos se superam na composição das cenas mais poderosas da película, chegando a transbordar da tela. Hoffman encontra o tom perfeito para dar a seu personagem o caráter ambiguo de que necessita, além de compor com competência as cenas que exigem uma forte carga dramática. Streep conseguiu denovo. Sua 15ª indicação ao Oscar é inquestionável e totalmente merecedora do prêmio maior. A atriz compõe um verdadeiro abutre que é sua personagem, mas sem cair em maniqueísmos, consegue humanizar Irmã Aloysius.

Mas e aí? Se você pensa que um filme pode se sustentar por grandes diálogos, um roteiro competente, atuações muito acima da média e reflexões diversas, certamente gostará de Dúvida. Mas se você acha que tão importante quanto uma história é a forma como ela é contada, sairá dos cinemas um pouco desapontado, porque esse é o principal problema do filme. Fora as grandes discussões, não há clímax no roteiro, passando aquela impressão de que o filme é parado demais, de que ele roda, roda, roda e não sai do lugar. A falta de experiência e de inovação de John Patrick Shanley no cinema cria a impressão de um filme que só serve de palco para grandes atores, não se destacando como um bom filme em si (leia aqui um texto sobre direção e roteiro). Dessa forma, dependendo de quem assistir ao filme, poderá ter uma epifania ou uma desapontamento. Mas há dúvidas sobre isso também.

3 Comentários

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3 Respostas para “Crítica: DÚVIDA (2008)

  1. Ariane

    Concordo com a crítica…..o filme transborda no quesito atuação..mas peca na narrativa..nada que o deixe ruim…mas poderia ter sido melhor!
    Quanto a Meryl Streep….não há palavras..simplesmente PERFEITA ! No primeiro instante pensei que ela fosse somente uma cascavel,mas depois sua personagem magistralmente mostrou um lado humano bom,algo que eu não esperava de sua personagem!

  2. Pingback: Carreira: Meryl Streep [4] « O Embasbacado

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