Crítica: FOI APENAS UM SONHO (2008)

E agora Frank?

E agora Frank?

Sam Mendes dirigiu Beleza Americana (1999), um dos melhores dramas urbanos já produzidos, sensível e crítico à vida em sociedade norte-americana. Agora, o diretor nos entrega uma obra nas mesmas linhas, sensível e crítica à vida familiar dos anos 1950. Foi Apenas um Sonho vai fundo na análise da suposta mediocridade da vida cotidiana, mas nos lembra de que, no fim das contas, um ideal de existência romântico pode ter fins nada agradáveis.

April (Kate Winslet) e Frank (Leonardo DiCaprio) se conhecem em uma noite dançante e, de repente, o filme salta para o futuro, quando os dois já estão casados e brigando muito. April já é mãe de dois filhos e não se contenta com a vida doméstica que leva. Frank não sabe direito o que quer da vida, só sabe que odeia seu trabalho. Aos poucos, percebemos que a monotonia de um cotidiano medíocre estende suas garras sobre a vida do casal, que protagoniza discussões épicas. Mas eles moram numa casa bonita.

Aliás, a passagem em que o casal está conhecendo a casa que viria a morar no futuro (o filme tem alguns poucos flash-backs) sintetiza todo o espírito de época. A década de 1950 é o pós-guerra da sociedade norte-americana, quando os Estados Unidos estão crescendo vertiginosamente e o “American Way Of Life” está nascendo. Se em Beleza Americana assistimos à crise deste modelo, Foi Apenas um Sonho nos mostra que ele já nasceu com problemas. A vizinha do casal, interpretada pela ótima Kathy Bates, uma de minhas atrizes preferidas, é a grande entusiasta desse modelo de vida.

Sam Mendes optou por um caminho mais seco, mas muito emocionante, na condução do longa. Não há muito tempo para romance ou para mostrar o começo da paixão do casal (já vimos isso em Titanic…). O tom áspero da crítica é o carro-chefe do filme durante todo o tempo. Os cenários e a caracterização de época são competentes e equilibrados, contrapondo-se a desarmonia da vida do casal, o que acentua ainda mais a vida de aparências e hipocrisias da sociedade. Assim, durante 119 minutos, somos apresentados a várias brigas, frustrações, desesperanças, falta de perpectivas, egoísmo e toda sorte de impropérios entre os pombinhos. Que brigas bem construídas!

Apesar de todo o sufoco de se viver em uma sociedade hipócrita, April e Frank exageram em seu ideal romântico de vida. Para ela, a possibilidade de uma vida boa está em outro lugar. Para ele o emprego é ruim, mas não faz nada para encontrar uma alternativa. Os filhos também não são um motivo de vida. Tudo é cinza, nada mais tem graça no mundo. April e Frank são românticos que se acham superiores à vida, que pensam que cada dia deve ser um espetáculo. Não passa por suas cabeças que o cotidiano possui sua mistura de emoção e mediocridade. April não aguenta, o fardo sobra para Frank. Tudo fora apenas um sonho vago e distante. A realidade acabou se impondo.

Um caso à parte no filme é Michael Shannon, indicado ao Oscar, que interpreta John Givings, um  neurótico que faz tratamento de choques. Seu personagem fala o que quer e acaba escancarando toda a mediocridade da vida para Frank e April. O grau de verdade que sai da boca de John chega a incomodar até a plateia, afinal, a verdade sempre dói, não é? Michael Shannon interpreta o personagem magistralmente e concorreu ao Oscar na mesma categoria de Heath Ledger. Eu logo imaginei uma conversa entre o Coringa e John Givings, seria uma pérola da filosofia moderna. Imaginem o John falando todas as verdades na cara do maníaco de Gotham City. Memorável!

Com apenas algumas falhas na apresentação dos personagens principais, o que prejudica a empatia inicial com o público, e alguns deslizes na condução do ritmo, que às vezes fica lento demais, Foi Apenas um Sonho se sobressai como um bom filme. Maduro e repleto de críticas e questionamentos, a película certamente encontrará eco nas emoções de quem a assiste, porque todos nós ainda vivemos em tempos vazios. Cinco décadas se passaram e o vazio continua entre nós. Colocar a culpa no “American Way of Life” já não cola mais, o mundo é mais complexo no século XXI. Quem sabe a atual crise mundial nos ensine alguma lição.

2 Comentários

Arquivado em Crítica

2 Respostas para “Crítica: FOI APENAS UM SONHO (2008)

  1. Ariane

    “Foi Apenas um sonho”é um filme maravilhoso!!!
    Nos faz pensar sobre a vida,e como a levamos……….se diante da rotina e desilusões agimos radicalmente sobre nossa vida!!!
    fantástico o filme….Todo elenco é fantástico..parabéns a todos

  2. Pingback: Retrospectiva 2009: Parte 3 « Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s