Arquivo do mês: março 2009

Crítica: GRAN TORINO (2008)

Ao entardecer...

Ao entardecer...

É, Clint Eastwood está bem velhinho, ano que vem faz 80 anos. O diretor, ator e compositor tem uma carreira bastante peculiar. Consagrou-se como ator valentão em filmes de western e, depois, revelou toda sua sensibilidade em grandes trabalhos como diretor. A década de 1990 viu Clint Eastwood tornar-se um dos maiores astros do cinema, dirigindo grandes obras como Os Imperdoáveis (1992) e As Pontes de Madison (1995). Com Gran Torino, o diretor nos presenteia com uma bela obra, que pode ser a última em que atua.

Eastwood interpreta Walt Kowalski, um veterano ranzinza da Guerra da Coréia que resiste em se mudar de seu bairro, ocupado em grande parte por imigrantes, inclusive orientais. Preso a fantasmas da época da guerra, Walt colocará seus valores à prova quando envolver-se com uma família oriental, após salvar Thao (Bee Vang) de uma gangue também oriental. Nos 116 minutos de projeção assistiremos à reconciliação do ideal americano com a diversidade, num diálogo com o início da Era Obama.

Há vários elementos técnicos no filme que são o retrato de Clint. As cenas mais escuras, o jeito contido de filmar e o clima realista, tão bem trabalhado em Sobre Meninos e Lobos. Há cenas memoráveis, como a final, que só podem ter saído da cabeça do experiente cineasta. No entanto, há alguns cacoetes que decorrem do fato de em vários momentos o diretor não estar atrás das câmeras, como a pobreza de algumas interpretações. Mas nada disso compromete o resultado final, acredite.

Walt Kowalski representa todo o conservadorismo e patriotismo extremados norte-americanos. Ele literalmente rosna quando algo fere seus valores. O grande mérito da película é não deixar o personagem caricatural parecer inverossímel. Walt possui uma complexidade de caráter que o filme trabalha muito bem, seja nas relações com os orientais, seja na construção da vida do personagem, sempre cheia de nuances. No fim das contas, toda a história acaba sendo uma redenção do velho lobo por todos seus atos presentes e passados (principalmente). O que fortalece a empatia do personagem é a construção da amizade com orientais, o ponto alto do filme que rende cenas singelas.

Gran Torino é também um retrato da convivência de diversas minorias em um país onde a imigração teve (e ainda tem) um forte papel. Em diversos momentos vemos o confronto entre hispânicos, negros e orientais que, em teoria, estão na mesma situação frente à realidade do país. Esse panorama revela muito do que sempre foi a luta por direitos das minorias: cada grupo buscando concretizar seus direitos, sem movimentação conjunta. Todos esses movimentos, ao se focarem em uma perspectiva limitada, se esquecem de que a verdadeira luta é pela afirmação do ser humano em si contra as arbitrariedades do poder e da tradição.

Por outro lado, há vários elementos ideológicos que muitos vão adorar criticar, como a doutrina da dignidade do trabalho, a americanização do jovem Thao e os lugares-comuns sobre o que é ser homem. Vejo esses valores como parte da construção do personagem principal e, sinceramente, diante do belo resultado final da película, essas questões acabam superadas.

Clint Eastwood é um grande astro, mas não é unanimidade, o que sempre é bom para suscitar o debate. Eu, particularmente, sou um grande admirador de sua obra recente, que desde os anos 90 vem produzindo filmes memoráveis. Gran Torino é mais um desses exemplares, e que possui um tempero a mais: a metalinguagem. Walt é, em alguns aspectos, uma figura do fim da carreira de Clint, que provavelmente não mais atuará. Gran Torino é um bom filme, mas é difícil analisá-lo em si, pois ele esbanja o crepúsculo do ídolo.

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Crítica: A RAINHA (2006)

Curvando-se ao talento de Helen Mirren

Curvando-se ao talento de Helen Mirren

Assisti a A Rainha pela primeira vez na ocasião de seu lançamento e pela segunda vez dias atrás para fazer um seminário na faculdade. Sim, tenho que relacionar o filme à obra  de um dos grandes filósofos do Direito, Hans Kelsen. Meus professores são criativos! Desconfio que tenha algo a ver com o ser e o dever-ser, mas de qualquer forma o filme se revelou um bom programa. Desculpem-me por não poder lançar questionamentos direitos, o que gosto muito de fazer, mas estou com problemas no teclado e não consigo achar o ponto de interrogação!

O filme cobre um período de tempo que começa com Tony Blair (Michael Sheen, o Frost de Frost|Nixon) assumindo o cargo de primeiro ministro britânico e se desenvolve na época em que a Princesa Diana sofreu um acidente de carro e veio a falecer. Acho que todo mundo se lembra da história. O argumento do filme se constrói em torno da vida íntima família real nessa época em que a fleuma britânica derreteu, enfocando principalmente a Rainha Elisabeth II, magistralmente interpretada por Helen Mirren.

Assim como 2008 foi o ano de Kate Winslet, 2006 fora o ano de Helen Mirren. A atriz mereceu todos os prêmios que levou por sua Elisabeth, encarnada com todas as suas sutilezas e olhares ambíguos. Helen Mirren consegue passar uma sensibilidae extrema e humanizar uma das figuras mais esteriotipadas do mundo. A cena que envolve a monarca e um cervo é o ápice da sensibilidade da atriz, que nos mostra muito bem como Elizabeth estava acuada, indentificando-se com a figura do animal. Palmas também para Sylvia Syms, que nos entrega uma estupenda Rainha Mãe.

Outro ponto forte do filme é o trio Direção de Arte, Figurino e Maquiagem. O trabalho é muito bem feito a ponto de levar qualquer um a sentir como é viver nas dependências das casas reais e por entre a classe da alta costura. Até mesmo nas roupas simples que a realeza usa a equipe acerta.

A Direção e a Edição do filme também rendem bons bocados. O Diretor Stephen Frears impoe um ritmo cosntante à pelicula, que não chega a cansar em momento algum e conduz com maestria o grande elenco que tem em mãos. A edição do filme, ao apostar em imagens e cenas reais, cria um clima documental que aproxima o filme da realidade. Mais recentemente, podemos ver o mesmo recurso em Milk – A Voz da Igualdade.

Outro aspecto a se destacar é a relação de circularidade que se estabelece entre a mídia e a opinião pública. Pergunto-me até que ponto a indignação popular era legítima ou provocada pela onda de reportagens de jornal. Aliás, nota-se a força da mídia frente as instituições inglesas, que já são muito arraigadas graças a Common Law. A insuflação da mídia chegou a fazer os britânicos a questionarem o papel da monarquia, vejam só! Nesse parágrafo o ponto de interrogação fez falta…

O senso de humor levemente fora de tom e os elogios excessivos à figura de Elizabeth II não chegam a comprometer o resultado final da película, que tem grandes qualidades estéticas e que passa sensibilidade à audiência. Um dos grandes filmes de 2006, o trabalho lança questionamentos muito atuais e configura-se como um enorme elogio ao talento de Helen Mirren.

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Entre o Crepúsculo e a Aurora

Crepúsculo

Desde quando iniciei esse blog, venho fazendo críticas de cinema. Sempre deixei claro, no entanto, que pretendia dar um enfoque diferenciado a meus textos, fugindo da mesmice das críticas que podemos encontrar em qualquer jornal. Essa é uma tendência que venho notando entre os blogs, as tentativas de fugir dessa padronização, alguns em maior tom, outros em menor. Mas para refletir sobre essa tendência, uma questionamento fundamental é necessário: o que raios é uma crítica?

Em linhas gerais, a crítica artística é um exercício racional sobre determinado tema da esfera cultural, visando objetivar percepções subjetivas. Belas palavras. O que o ocorre, na verdade, é que as críticas formam um imenso mercado ao lado da própria da Arte, às vezes ganhando maior projeção que seu próprio objeto. Nesse sentido, durante muitas décadas, a crítica cinematográfica ganhou credibilidade e poder a ponto de influenciar a decisão de um indivíduo ir ou não ao cinema. Essa realidade contém uma contradição básica: por mais objetiva e bem realizada que uma crítica seja, ela nunca pode substituir a experiência estética que o indivíduo possui. Assim, aconselhar ou desaconselhar alguém a ir no cinema por meio de um texto é uma incoerência gigantesca.

Valendo-me das palavras do mestre Rubem Alves, críticas são palavras e “palavras que ensinam são gaiolas para pássaros engaioláveis”. Ocorre que a Arte é sempre um pássaro em voo, nunca preso pelo poder da razão.  Engaiolar a  Arte é decretar sua sentença de morte. Assim, tentar ensinar alguém a como sentir um filme é impossível. Não se pode ensinar a beleza, pois o belo só se sente no íntimo de cada um. Quem nunca foi o único a chorar em um filme ou o chato que não se emociou junto a todos?

Nesse contexto, a crítica cinematográfica toma outros moldes, que é a discussão de temas que estão em seu escopo: as técnicas de se fazer cinema e as ideias por trás delas. Isso pode ser discutido, afinal estamos falando em uma realidade objetiva, ou seja, o trabalho concreto de construção de um filme. Esse trabalho (edição, fotografia, direção e afins) pode ser analisado à luz da razão, pois há parâmetros para tal empreitada. Mais que isso, é possível assumir uma tendência a um caminho reflexivo nas análises de cinema, levantando discussões pertinentes à realidade em que vivemos. Assim, ao invés de tentar roubar a experiência estética de quem assiste a um filme, podemos aproveitá-la para expandir o alcance da obra. Deixa-se de lado a tentativa de engaiolar a Arte para extendê-la ao máximo.

Estamos entre o crepúsculo de uma época em que críticos dão notas a filmes e a aurora de um tempo em que filmes são discutidos em sua extensão pela realidade. Só haverá espaço para a crítica se houver reconhecimento de que não se discute beleza, mas técnica. O modo como se faz um filme e seus questionamentos podem ser discutidos, sua beleza não. Não há mais espaço para roubar os sentimentos alheios.  Se os grandes autores de críticas insistirem em tentar reduzir as experiências estéticas à mera racionalidade, correremos o risco de criar um mundo paralelo onde o expectador comum não consegue se enxergar. Dentro dessa perspectiva, saúdo a todos os apreciadores de cinema que, como eu, estão presos a este delicioso vício de discutir a Arte.

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Crítica: FROST/NIXON (2008)

"Ei, Frost, com esses sapatos você nunca vai levar essa!"

"Ei, Frost, com esses sapatos você nunca vai levar essa!"

Lançado nos cinemas ao fim da presidência mais controvertida dos últimos tempos, Frost/Nixon retoma a imagem do presidente Richard Nixon, que renunciou ao cargo máximo dos Estados Unidos em 1974, depois do escândalo de Watergate. Dirigido por Ron Howard, de Uma Mente Brilhante, o filme traz à tona questões interessantes sobre o papel das aparências na mídia e sobre a importância da dialética para ganhar um debate, mesmo que você esteja errado.

Alguns anos se passaram desde a renúncia do presidente Richard Nixon (Frank Langella), e os fatos acerca de Watergate continuam obscuros. Intimidações, escutas ilegais, corrupção (ei, alguém aí parecer conhecer essa história?). O apresentador David Frost (Michael Sheen) enxerga a possibilidade de retomar sua carreira nos Estados Unidos e abandonar os programas sensacionalistas conseguindo uma entrevista com Nixon. Já o ex-presidente, depois de ganhar uma bolada para aceitar o convite, vê sua chance de redenção perante a nação e, quem sabe, de retormar sua carreira política. A partir daí, um embate começa entre Frost, que tenta arrancar de Nixon um mea culpa, e o ex-presidente, que não pode vacilar perante as câmeras.

O filme foi adaptado de uma peça teatral, na qual Frank Langella e Michael Sheen interpretam os mesmos personagens da película. Aliás, o roteiro do filme é de Peter Morgan, o mesmo da peça. O grande trunfo de se valer de uma equipe que tinha experiência no teatro é saber os pontos fortes e fracos da história. Na hora de passar para a grande tela, a equipe possui bastante intimidade com o que está fazendo. Porém, sempre haverá aquela objeção de que o filme é teatral demais, que a fotografia é fechada demais, com closes nos atores e predominância de ambientes fechados, assim como ocorreu em Dúvida. Todos sabem, eu não me importo.

Frost/Nixon é um grande filme de boxe, em seu melhor sentido. Toda a película é dividida em quatro rounds de perguntas e respostas, com Frost tentando atingir o ex-presidente e Nixon se desvidando e contra-atacando com mais força. Nos intervalos, ainda somos apresentados às equipes de ambos os oponentes discutindo melhores estratégias, como o treinador de Rocky Balboa. E, ao final, quando o mocinho estava apanhanado há muito tempo, ele desfecha um golpe mortal que vira a partida e derruba Nixon de nocaulte. A multidão vai à loucura! Metáfotas à parte, o filme é uma bela disputa dialética entre os protagonistas. A História é a mesma, os fatos estão lá, mas as versões são variadas. Tal qual em um tribunal, acabou levando a melhor aquele que soube manipular os fatos a seu favor e criar uma versão da verdade que convenceu a audiência das entrevistas.

O que contribui para a qualidade do filme, que se baseia nas conversas entre Frost e Nixon, é a qualidade de ambos os atores, já íntimos entre si e seus personagens desde a montagem teatral. Frak Langella nos entrega um cínico e cativante Richard Nixon, mas que guarda sua dose de arrogância pela qual o presidente era conhecido. Michal Sheen também convence muito bem, suas expressões durantes as entrevistas mostram perfeitamente o estado de pânico em que Frost se encontrava ao não conseguir seus objetivos. O embate entre ambos lembra muito o duelo de diálogos entre Meryl Streep e Philip Seymor Hoffman em Dúvida, apesar de a abordagem da direção ser diferente em ambos. Destaco também a participação de Kevin Bacon, como acessor de Nixon e de Rebecca Hall, a Vicky de Vicky Cristina Barcelona.

Frost/Nixon se revela um ótimo filme político, com questões muito atuais e com um ritmo constante, que consegue prender a atenção durante todo o filme. Contando com uma direção competente de Ron Howard, a película guarda algumas de suas heranças teatrais, mas se sustenta perfeitamente na tela grande. Em uma época de revisionismo da Era Bush, o filme vem a calhar ao tratar de desmandos presidenciais e de embate entre versões de uma mesma história. Vá ao cinema para se divertir, e aproveite para ter uma aula de discussão e dialética.

OBS.: Frost/Nixon foi o último dos indicados ao Oscar a que assisti e cheguei a uma conclusão inusitada: nesse ano, nenhum dos filmes devia ter levado a estatueta! And the Oscar goes to… nobody!

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Crítica de estreia: QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

Tudo não passa de um showzinho...

Tudo não passa de um showzinho...

Depois de arrebatar quase todos os prêmios de sindicatos e sair como o grande vitorioso da noite do Oscar, com oito estatuetas, Quem Quer Ser Um Milionário? chegou ao Brasil sob o olhar atento de milhares de pessoas. Produzido numa espécie de encontro entre Hollywood e Bollywood, o filme de baixo orçamento para os padrões do cinemão despertou a curiosidade de pessoas mundo afora. Eu, como muitos por aí, esperava ansiosamente para conferir tamanho sucesso de perto. O problema é que, visto de perto, percebi que fomos todos enganados.

Não se assuste. À primeira vista, o filme é explosivo e garante grande diversão. Jamal Malik está a uma pergunta de ganhar 20 milhões de rúpias no programa indiano parecido com o Show do Milhão. O único detalhe é que Jamal é apenas um servente de chá em um telemarketing. Assim, detido pela polícia sob suspeita de fraude, o garoto dá suas explicações ao mesmo tempo em que somos apresentados a toda sua vida em um sucessão de idas e voltas no tempo. Adiciona-se a isso uma história de amor, um ritmo frenético e crianças simpáticas e, voilà, você ganhou o Oscar de Melhor Filme!

Não há como negar que toda a equipe de Milionário faz um bom trabalho. A trilha sonora é aprazível, apesar de não ser extraordinária a ponto de merecer o Oscar. As atuações não se destacam, mas convencem bem. O maior trunfo do filme é justamente uma das características mais prezadas no cinema: a edição. Milionário vai e volta no tempo inúmeras vezes. Mais que isso, cada viagem temporal é uma explicação para um evento do presente, e a passagem entre tempos diferentes é muito bem diluída e pouco forçada. Em momento algum nos sentimos perdidos na história, o que contribui para acelerar ainda mais o ritmo alucinante da película.

Como se não bastasse, o roteiro (adaptado) possui vários elementos emocionais que cativam a audiência. O lado slumdog (favelado) da Índia é exaustivamente lançado na tela. Crianças em situações degradantes, exploração sexual, tortura, pobreza extrema e lutas religiosas passam uma impressão de conteúdo social. Ah, e as crianças sempre mantêm um sorriso no rosto, para despertar o público para o contraste da situação da vida em que vivem (e conquistar corações em votações de prêmios internacionais).

É, mas o conteúdo social fica somente na impressão. É inegável a exposição do lado degradante da Índia, atualmente vista com entusiasmo por seu crescimento econômico. Porém, no fundo, tudo não passa de efeito pirotécnico para tocar corações. Olhando atentamente, vemos que Milionário possui uma história totalmente reacionária. Quero dizer, Jamal consegue ganhar o prêmio por causa do destino! Um favelado consegue tornar-se um milionário por causa do destino, e não por causa de seu próprio esforço ou pelo ajuste dos valores da sociedade. Nesse aspecto, o mundo fica preso a um determinismo absoluto. Jamal conseguiu vencer seus desafios por mera sorte, porque, afinal, favelados nunca conseguirão tornar-se milionários. Na saída do cinema, ainda ouvi alguns comentários: “É, a vida não é só feita de coisa ruim”. Ah, claro, no fim ainda saímos de consciência apaziguada pois aqueles que vivem na miséria absoluta ainda podem contar com a sorte para mudar de vida. Ufa, o mundo não é tão ruim. Lastimável.

Não vou me alongar em aspectos técnicos e da direção do filme. Quem Quer Ser um Milionário? talvez mereça seus prêmios por isso tudo. Mas será que só isso garante o título de melhor filme do ano? Milionário é uma fábula romântica, na qual o herói encontra sua redenção, vence seu destino e ainda garante a felicidade ao lado de sua amada (sem personalidade alguma). Mas é uma filme plano, sem aprofundamento ou crítica digna. Há quem ache que essas são grandes histórias. Eu penso que não. Milionário é só bonitinho e conseguiu seu objetivo: conquistar a todos sem possuir um único elemento que o torne um clássico do cinema.

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Nova Vida

Olá Pessoal! Peço desculpas por não estar atualizando o blog durante a semana, mas me mudei para São Paulo e, como todos sabemos, os serviços de telecomunicações funcionam muito bem no país. Estou sem telefone, quem dirá internet! Até a situação se normalizar, farei atualizações nos fins de semana, não abandonarei este blog!

Gostaria de postar um selo que ganhei do blog Os Amorais, mas não tenho a figura por aqui… estou dependendo de Lan  Houses. Assim que puder, colocarei por aqui também!

Assim que retornar, lançarei uma coluna nova, a se chamar “Cinema e Direito”… podem esperar!

Um abraço e bons filmes,

Renan

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Crítica: O LEITOR (2008)

O LEITOR

O Leitor não é propriamente um filme sobre o holocausto, mas sobre o pós-guerra na Alemanha, afinal, sobre o massacre de milhões de pessoas pelo governo nazista só ouvimos relatos em tribunais. Reduzir o filme a “mais uma história sobre o holocausto” é diminuir sua sensibilidade e seu poder, é cair em maniqueísmos que a própria película insiste em criticar.

A história começa com Michael Berg (Ralph Fiennes) relembrando seu passado. O jovem Berg, interpretado por David Kross, se envolve em um relacionamento com uma mulher bem mais velha, Hanna (Kate Winslet), no final da década de 1950. Depois de uma intensa e peculiar relação sentimental, sexual e de leitura, Hanna desaparece misteriosamente. Oito anos depois, Berg é estudante de Direito e acompanha um julgamento de antigas guardas da SS (a polícia secreta do nazismo), acusadas de homicídio de 300 pessoas. Sua surpresa se dá por conta de Hanna ser uma das acusadas.

O filme é marcado por três atos: romance, conflito e redenção, muito bem trabalhados pelo talentoso diretor Stephen Daldry, de As Horas. Muitos elementos característicos do diretor estão na fita, como as relações com a arte de ler, a fotografia contrastante (claro e escuro no mesmo plano) nos lugares fechados e o estudo da alma humana em suas profundidades. A história original é de um livro, mas Daldry consegue colocar suas marcas ao fazer um filme, no mínimo, inquietante.

O romance entre os protagonistas é, do ponto de vista cinematográfico, muito sincero. Não há idealização ou maquiagem da relação. Uma mulher e um garoto (ok, o ator não é menor de idade) aparecem nus, juntos na cama. Essa sinceridade causa o primeiro impacto, já que estamos acostumados a assistir àquelas cenas, repletas de hipocrisia, nas quais a relação sexual é tratada como um balé. Destaco a cena em que Berg janta com a família e se lembra de sua aventura, memorável! O nu e o cru servem para escancarar a humanidade, tema principal da película. Isso sem falar da peculiaridade relacionada à leitura de livros…

Quando o filme avança no tempo e assistimos ao julgamento de Hanna, várias questões polêmicas envolvendo Ética e Direito vêm à tona. Hanna enxerga tudo em termos absolutos, é próprio de autoritarismos enxergar o mundo por uma ótica de absolutos. Ela tinha ordens de seus comandantes e tinha que cumpri-las a qualquer custo, poderia ser julgada culpada por isso? Aliás, durante as décadas de 1930 e 1940, até o fim da Segunda Guerra, a sociedade alemã era conivente com o nazismo. O regime totalitário exercia repressão, mas não podia se sustentar sem apoio. A questão que se coloca é: poderia Hanna ser julgada por leis posteriores ao período em que trabalhou? Afinal, em sua época de guarda, ela não cometeu crimes, mas ajudou o regime dominante. Ela só passaria a ser vista como um monstro depois de os Aliados vencerem a guerra e levaram a ideologia dos Direitos Humanos aos quatro cantos do mundo.

Conforme a história avança, nossas opiniões vão sendo confrontadas. Apesar de o ritmo do filme cair um pouco na meia hora final, ele cumpre suas intenções de quebrar maniqueísmos. Através de nossa ótica atual, Hanna é um que monstro, mas a mulher tem outras nuances que desafiam nossa compreensão. Apesar de sua culpa, ao final do filme, não poderemos negar a humanidade que existe dentro dela. E todas essas questões vêm envolvidas com o amor pela leitura e por um segredo de Hanna, crucial para algumas questões da película.

Kate Winslet dá um show à parte, como já é característico de seus trabalhos. Sua expressão é poderosa, seus olhares são cortantes e sua presença em cena já se faz sentir lá dentro do peito. Seu trabalho é competente ao extremo, por isso continuo achando que o melhor teria sido um empate entre Meryl e Kate no Oscar, mas… Ah, a maquiagem do filme não foi lá grande coisa. Depois de O Curioso Caso de Benjamin Button, vão ter que se esforçar para envelhecer atores e fazê-los passar por várias épocas diferentes.

O Leitor poderia ter facilmente caído em moralismo, mas, graças ao livro original e ao roteiro e direção do filme, consegue contar uma história sensível e cheia de nuances. Com indicações merecidas ao Oscar de 2009, a película entra para a lista de grandes filmes. É, uns lutam, outros leem e eu assisto a todos embasbacado!  

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