Crítica: O LEITOR (2008)

O LEITOR

O Leitor não é propriamente um filme sobre o holocausto, mas sobre o pós-guerra na Alemanha, afinal, sobre o massacre de milhões de pessoas pelo governo nazista só ouvimos relatos em tribunais. Reduzir o filme a “mais uma história sobre o holocausto” é diminuir sua sensibilidade e seu poder, é cair em maniqueísmos que a própria película insiste em criticar.

A história começa com Michael Berg (Ralph Fiennes) relembrando seu passado. O jovem Berg, interpretado por David Kross, se envolve em um relacionamento com uma mulher bem mais velha, Hanna (Kate Winslet), no final da década de 1950. Depois de uma intensa e peculiar relação sentimental, sexual e de leitura, Hanna desaparece misteriosamente. Oito anos depois, Berg é estudante de Direito e acompanha um julgamento de antigas guardas da SS (a polícia secreta do nazismo), acusadas de homicídio de 300 pessoas. Sua surpresa se dá por conta de Hanna ser uma das acusadas.

O filme é marcado por três atos: romance, conflito e redenção, muito bem trabalhados pelo talentoso diretor Stephen Daldry, de As Horas. Muitos elementos característicos do diretor estão na fita, como as relações com a arte de ler, a fotografia contrastante (claro e escuro no mesmo plano) nos lugares fechados e o estudo da alma humana em suas profundidades. A história original é de um livro, mas Daldry consegue colocar suas marcas ao fazer um filme, no mínimo, inquietante.

O romance entre os protagonistas é, do ponto de vista cinematográfico, muito sincero. Não há idealização ou maquiagem da relação. Uma mulher e um garoto (ok, o ator não é menor de idade) aparecem nus, juntos na cama. Essa sinceridade causa o primeiro impacto, já que estamos acostumados a assistir àquelas cenas, repletas de hipocrisia, nas quais a relação sexual é tratada como um balé. Destaco a cena em que Berg janta com a família e se lembra de sua aventura, memorável! O nu e o cru servem para escancarar a humanidade, tema principal da película. Isso sem falar da peculiaridade relacionada à leitura de livros…

Quando o filme avança no tempo e assistimos ao julgamento de Hanna, várias questões polêmicas envolvendo Ética e Direito vêm à tona. Hanna enxerga tudo em termos absolutos, é próprio de autoritarismos enxergar o mundo por uma ótica de absolutos. Ela tinha ordens de seus comandantes e tinha que cumpri-las a qualquer custo, poderia ser julgada culpada por isso? Aliás, durante as décadas de 1930 e 1940, até o fim da Segunda Guerra, a sociedade alemã era conivente com o nazismo. O regime totalitário exercia repressão, mas não podia se sustentar sem apoio. A questão que se coloca é: poderia Hanna ser julgada por leis posteriores ao período em que trabalhou? Afinal, em sua época de guarda, ela não cometeu crimes, mas ajudou o regime dominante. Ela só passaria a ser vista como um monstro depois de os Aliados vencerem a guerra e levaram a ideologia dos Direitos Humanos aos quatro cantos do mundo.

Conforme a história avança, nossas opiniões vão sendo confrontadas. Apesar de o ritmo do filme cair um pouco na meia hora final, ele cumpre suas intenções de quebrar maniqueísmos. Através de nossa ótica atual, Hanna é um que monstro, mas a mulher tem outras nuances que desafiam nossa compreensão. Apesar de sua culpa, ao final do filme, não poderemos negar a humanidade que existe dentro dela. E todas essas questões vêm envolvidas com o amor pela leitura e por um segredo de Hanna, crucial para algumas questões da película.

Kate Winslet dá um show à parte, como já é característico de seus trabalhos. Sua expressão é poderosa, seus olhares são cortantes e sua presença em cena já se faz sentir lá dentro do peito. Seu trabalho é competente ao extremo, por isso continuo achando que o melhor teria sido um empate entre Meryl e Kate no Oscar, mas… Ah, a maquiagem do filme não foi lá grande coisa. Depois de O Curioso Caso de Benjamin Button, vão ter que se esforçar para envelhecer atores e fazê-los passar por várias épocas diferentes.

O Leitor poderia ter facilmente caído em moralismo, mas, graças ao livro original e ao roteiro e direção do filme, consegue contar uma história sensível e cheia de nuances. Com indicações merecidas ao Oscar de 2009, a película entra para a lista de grandes filmes. É, uns lutam, outros leem e eu assisto a todos embasbacado!  

5 Comentários

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5 Respostas para “Crítica: O LEITOR (2008)

  1. Ariane

    O que poderia ser dito sobre “O Leitor” …………MARAVILHOSO….PERFEITO…………KATE WINSLET….MAGNÍFICA………….. O leitor é um filme surpreendente que como disse o crítico não se detem a maniqueísmos……..nem a moralismo………..
    o filme é fantástico…….

  2. Alice

    Acabei de assistir ao filme, hoje,achei ótimo e agora estou buscando mais subsídios através dos comentários e críticas pela Internet. Mas minha grande dúvida é: qual é o segredo de Hanna? (ser analfabeta? mas, se positiva minha resposta, qual a importância de ser analfabeta para o desenrolar da sua vida?) Aguardo resposta pelo meu e.mail (que peço não seja publicado). Obrigada.

    • Alice,
      QUAL O SEGREDO? Talvez no filme não fique claro mas a questão toda é: Hanna é analfabeta. Eis seu grande segredo. Por isso ela foi para a SS, porque senão, teria que trabalhar nos escritórios da SIEMENS o que, no caso dela, analfabeta, seria impossível. Por isso acabou seguindo para os campos e mostra que nem todos que lá trabalharam foram por vontade. Houve quem fosse por falta de opção, por mais absurdo que possa parecer. E ela prefere dizer que escreveu o tal relatório e ser condenada à prisão perpétua do que admitir que era analfabeta e pegar uma pena mais branda.

  3. Assisti ontem ao filme e gostei bastante. Realmente muito boa a atuação de Kate. O filme é baseado num livro? O livro tem o mesmo nome?
    É muito louco como uma pessoa prefere assumir a culpa pelo comando da operação a assumir a sua própria “ignorância”. Muito bem criado o personagem de Hanna. Bem tridimencional.
    Não achei ruim a maquiagem (achei ruim em Watchmen) embora não seja tão boa quanto a de Benjamin Button.

  4. Pingback: Retrospectiva 2009: Parte 1 « Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos

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