Crítica de estreia: QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

Tudo não passa de um showzinho...

Tudo não passa de um showzinho...

Depois de arrebatar quase todos os prêmios de sindicatos e sair como o grande vitorioso da noite do Oscar, com oito estatuetas, Quem Quer Ser Um Milionário? chegou ao Brasil sob o olhar atento de milhares de pessoas. Produzido numa espécie de encontro entre Hollywood e Bollywood, o filme de baixo orçamento para os padrões do cinemão despertou a curiosidade de pessoas mundo afora. Eu, como muitos por aí, esperava ansiosamente para conferir tamanho sucesso de perto. O problema é que, visto de perto, percebi que fomos todos enganados.

Não se assuste. À primeira vista, o filme é explosivo e garante grande diversão. Jamal Malik está a uma pergunta de ganhar 20 milhões de rúpias no programa indiano parecido com o Show do Milhão. O único detalhe é que Jamal é apenas um servente de chá em um telemarketing. Assim, detido pela polícia sob suspeita de fraude, o garoto dá suas explicações ao mesmo tempo em que somos apresentados a toda sua vida em um sucessão de idas e voltas no tempo. Adiciona-se a isso uma história de amor, um ritmo frenético e crianças simpáticas e, voilà, você ganhou o Oscar de Melhor Filme!

Não há como negar que toda a equipe de Milionário faz um bom trabalho. A trilha sonora é aprazível, apesar de não ser extraordinária a ponto de merecer o Oscar. As atuações não se destacam, mas convencem bem. O maior trunfo do filme é justamente uma das características mais prezadas no cinema: a edição. Milionário vai e volta no tempo inúmeras vezes. Mais que isso, cada viagem temporal é uma explicação para um evento do presente, e a passagem entre tempos diferentes é muito bem diluída e pouco forçada. Em momento algum nos sentimos perdidos na história, o que contribui para acelerar ainda mais o ritmo alucinante da película.

Como se não bastasse, o roteiro (adaptado) possui vários elementos emocionais que cativam a audiência. O lado slumdog (favelado) da Índia é exaustivamente lançado na tela. Crianças em situações degradantes, exploração sexual, tortura, pobreza extrema e lutas religiosas passam uma impressão de conteúdo social. Ah, e as crianças sempre mantêm um sorriso no rosto, para despertar o público para o contraste da situação da vida em que vivem (e conquistar corações em votações de prêmios internacionais).

É, mas o conteúdo social fica somente na impressão. É inegável a exposição do lado degradante da Índia, atualmente vista com entusiasmo por seu crescimento econômico. Porém, no fundo, tudo não passa de efeito pirotécnico para tocar corações. Olhando atentamente, vemos que Milionário possui uma história totalmente reacionária. Quero dizer, Jamal consegue ganhar o prêmio por causa do destino! Um favelado consegue tornar-se um milionário por causa do destino, e não por causa de seu próprio esforço ou pelo ajuste dos valores da sociedade. Nesse aspecto, o mundo fica preso a um determinismo absoluto. Jamal conseguiu vencer seus desafios por mera sorte, porque, afinal, favelados nunca conseguirão tornar-se milionários. Na saída do cinema, ainda ouvi alguns comentários: “É, a vida não é só feita de coisa ruim”. Ah, claro, no fim ainda saímos de consciência apaziguada pois aqueles que vivem na miséria absoluta ainda podem contar com a sorte para mudar de vida. Ufa, o mundo não é tão ruim. Lastimável.

Não vou me alongar em aspectos técnicos e da direção do filme. Quem Quer Ser um Milionário? talvez mereça seus prêmios por isso tudo. Mas será que só isso garante o título de melhor filme do ano? Milionário é uma fábula romântica, na qual o herói encontra sua redenção, vence seu destino e ainda garante a felicidade ao lado de sua amada (sem personalidade alguma). Mas é uma filme plano, sem aprofundamento ou crítica digna. Há quem ache que essas são grandes histórias. Eu penso que não. Milionário é só bonitinho e conseguiu seu objetivo: conquistar a todos sem possuir um único elemento que o torne um clássico do cinema.

4 Comentários

Arquivado em Crítica

4 Respostas para “Crítica de estreia: QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?

  1. Ariane

    RENANNN!!!!!!!!!!!!!!!
    PARABÉNS!! Vc disse tudo nessa critica..concordo plenamente……………..tanto sobre a história e seus determinismos……..
    quanto as atuaçoes q sao boas mas nao chegam a ser extraordinarias!!!!!!!!
    Mas falando dos créditos……………………o que significa aquela dança na estaçao ferroviaria???????????? Apenas uma musica pra ganhar um Oscar????????????hehehheheheehehhehheeheheheheh

    Apesar de alguns elementos falhosos..o filme é muiiiiiiiiiiittttoooo bom!!!!!!!

  2. margarete

    Concordo plenamente, apesar de ter gostado do filme; um filme que prende atenção, não achei tão especial para tantos prêmios. Você tem muita visão de cinema…parabéns!!!!!

  3. Rodrigo

    Não concordo com a crítica,pois gostei muito do filme,além de ficar encantado com a história!

  4. Pingback: Retrospectiva 2009: Parte 1 « Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos

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