Crítica: FROST/NIXON (2008)

"Ei, Frost, com esses sapatos você nunca vai levar essa!"

"Ei, Frost, com esses sapatos você nunca vai levar essa!"

Lançado nos cinemas ao fim da presidência mais controvertida dos últimos tempos, Frost/Nixon retoma a imagem do presidente Richard Nixon, que renunciou ao cargo máximo dos Estados Unidos em 1974, depois do escândalo de Watergate. Dirigido por Ron Howard, de Uma Mente Brilhante, o filme traz à tona questões interessantes sobre o papel das aparências na mídia e sobre a importância da dialética para ganhar um debate, mesmo que você esteja errado.

Alguns anos se passaram desde a renúncia do presidente Richard Nixon (Frank Langella), e os fatos acerca de Watergate continuam obscuros. Intimidações, escutas ilegais, corrupção (ei, alguém aí parecer conhecer essa história?). O apresentador David Frost (Michael Sheen) enxerga a possibilidade de retomar sua carreira nos Estados Unidos e abandonar os programas sensacionalistas conseguindo uma entrevista com Nixon. Já o ex-presidente, depois de ganhar uma bolada para aceitar o convite, vê sua chance de redenção perante a nação e, quem sabe, de retormar sua carreira política. A partir daí, um embate começa entre Frost, que tenta arrancar de Nixon um mea culpa, e o ex-presidente, que não pode vacilar perante as câmeras.

O filme foi adaptado de uma peça teatral, na qual Frank Langella e Michael Sheen interpretam os mesmos personagens da película. Aliás, o roteiro do filme é de Peter Morgan, o mesmo da peça. O grande trunfo de se valer de uma equipe que tinha experiência no teatro é saber os pontos fortes e fracos da história. Na hora de passar para a grande tela, a equipe possui bastante intimidade com o que está fazendo. Porém, sempre haverá aquela objeção de que o filme é teatral demais, que a fotografia é fechada demais, com closes nos atores e predominância de ambientes fechados, assim como ocorreu em Dúvida. Todos sabem, eu não me importo.

Frost/Nixon é um grande filme de boxe, em seu melhor sentido. Toda a película é dividida em quatro rounds de perguntas e respostas, com Frost tentando atingir o ex-presidente e Nixon se desvidando e contra-atacando com mais força. Nos intervalos, ainda somos apresentados às equipes de ambos os oponentes discutindo melhores estratégias, como o treinador de Rocky Balboa. E, ao final, quando o mocinho estava apanhanado há muito tempo, ele desfecha um golpe mortal que vira a partida e derruba Nixon de nocaulte. A multidão vai à loucura! Metáfotas à parte, o filme é uma bela disputa dialética entre os protagonistas. A História é a mesma, os fatos estão lá, mas as versões são variadas. Tal qual em um tribunal, acabou levando a melhor aquele que soube manipular os fatos a seu favor e criar uma versão da verdade que convenceu a audiência das entrevistas.

O que contribui para a qualidade do filme, que se baseia nas conversas entre Frost e Nixon, é a qualidade de ambos os atores, já íntimos entre si e seus personagens desde a montagem teatral. Frak Langella nos entrega um cínico e cativante Richard Nixon, mas que guarda sua dose de arrogância pela qual o presidente era conhecido. Michal Sheen também convence muito bem, suas expressões durantes as entrevistas mostram perfeitamente o estado de pânico em que Frost se encontrava ao não conseguir seus objetivos. O embate entre ambos lembra muito o duelo de diálogos entre Meryl Streep e Philip Seymor Hoffman em Dúvida, apesar de a abordagem da direção ser diferente em ambos. Destaco também a participação de Kevin Bacon, como acessor de Nixon e de Rebecca Hall, a Vicky de Vicky Cristina Barcelona.

Frost/Nixon se revela um ótimo filme político, com questões muito atuais e com um ritmo constante, que consegue prender a atenção durante todo o filme. Contando com uma direção competente de Ron Howard, a película guarda algumas de suas heranças teatrais, mas se sustenta perfeitamente na tela grande. Em uma época de revisionismo da Era Bush, o filme vem a calhar ao tratar de desmandos presidenciais e de embate entre versões de uma mesma história. Vá ao cinema para se divertir, e aproveite para ter uma aula de discussão e dialética.

OBS.: Frost/Nixon foi o último dos indicados ao Oscar a que assisti e cheguei a uma conclusão inusitada: nesse ano, nenhum dos filmes devia ter levado a estatueta! And the Oscar goes to… nobody!

3 Comentários

Arquivado em Crítica

3 Respostas para “Crítica: FROST/NIXON (2008)

  1. Interessante você achar que nenhum dos filmes indicados ao Oscar 2009 merecia levar a estatueta na categoria principal.🙂

    Eu quero muito assistir “Frost/Nixon”, mas o filme ainda não estreou em minha cidade. E você cita como ponto positivos do longa os dois elementos que mais me interessam nele: roteiro e elenco, especialmente o duelo Frank Langella x Michael Sheen.

  2. Oi Kamila!

    Realmente, só para não ir longe, se compararmos a disputa desse ano com o Oscar do ano passada, vemos que os filmes de 2007 eram bem superiores aos de 2008.

    O duelo dos protagonistas realmente sustenta o filme, mas o roteiro não fica para trás, afinal, sustentar um filme só com o argumento de uma entrevista de TV não é fácil não!

    Abraços,
    Renan

  3. Pingback: Retrospectiva 2009: Parte 1 « Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos

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