Entre o Crepúsculo e a Aurora

Crepúsculo

Desde quando iniciei esse blog, venho fazendo críticas de cinema. Sempre deixei claro, no entanto, que pretendia dar um enfoque diferenciado a meus textos, fugindo da mesmice das críticas que podemos encontrar em qualquer jornal. Essa é uma tendência que venho notando entre os blogs, as tentativas de fugir dessa padronização, alguns em maior tom, outros em menor. Mas para refletir sobre essa tendência, uma questionamento fundamental é necessário: o que raios é uma crítica?

Em linhas gerais, a crítica artística é um exercício racional sobre determinado tema da esfera cultural, visando objetivar percepções subjetivas. Belas palavras. O que o ocorre, na verdade, é que as críticas formam um imenso mercado ao lado da própria da Arte, às vezes ganhando maior projeção que seu próprio objeto. Nesse sentido, durante muitas décadas, a crítica cinematográfica ganhou credibilidade e poder a ponto de influenciar a decisão de um indivíduo ir ou não ao cinema. Essa realidade contém uma contradição básica: por mais objetiva e bem realizada que uma crítica seja, ela nunca pode substituir a experiência estética que o indivíduo possui. Assim, aconselhar ou desaconselhar alguém a ir no cinema por meio de um texto é uma incoerência gigantesca.

Valendo-me das palavras do mestre Rubem Alves, críticas são palavras e “palavras que ensinam são gaiolas para pássaros engaioláveis”. Ocorre que a Arte é sempre um pássaro em voo, nunca preso pelo poder da razão.  Engaiolar a  Arte é decretar sua sentença de morte. Assim, tentar ensinar alguém a como sentir um filme é impossível. Não se pode ensinar a beleza, pois o belo só se sente no íntimo de cada um. Quem nunca foi o único a chorar em um filme ou o chato que não se emociou junto a todos?

Nesse contexto, a crítica cinematográfica toma outros moldes, que é a discussão de temas que estão em seu escopo: as técnicas de se fazer cinema e as ideias por trás delas. Isso pode ser discutido, afinal estamos falando em uma realidade objetiva, ou seja, o trabalho concreto de construção de um filme. Esse trabalho (edição, fotografia, direção e afins) pode ser analisado à luz da razão, pois há parâmetros para tal empreitada. Mais que isso, é possível assumir uma tendência a um caminho reflexivo nas análises de cinema, levantando discussões pertinentes à realidade em que vivemos. Assim, ao invés de tentar roubar a experiência estética de quem assiste a um filme, podemos aproveitá-la para expandir o alcance da obra. Deixa-se de lado a tentativa de engaiolar a Arte para extendê-la ao máximo.

Estamos entre o crepúsculo de uma época em que críticos dão notas a filmes e a aurora de um tempo em que filmes são discutidos em sua extensão pela realidade. Só haverá espaço para a crítica se houver reconhecimento de que não se discute beleza, mas técnica. O modo como se faz um filme e seus questionamentos podem ser discutidos, sua beleza não. Não há mais espaço para roubar os sentimentos alheios.  Se os grandes autores de críticas insistirem em tentar reduzir as experiências estéticas à mera racionalidade, correremos o risco de criar um mundo paralelo onde o expectador comum não consegue se enxergar. Dentro dessa perspectiva, saúdo a todos os apreciadores de cinema que, como eu, estão presos a este delicioso vício de discutir a Arte.

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