Crítica: GRAN TORINO (2008)

Ao entardecer...

Ao entardecer...

É, Clint Eastwood está bem velhinho, ano que vem faz 80 anos. O diretor, ator e compositor tem uma carreira bastante peculiar. Consagrou-se como ator valentão em filmes de western e, depois, revelou toda sua sensibilidade em grandes trabalhos como diretor. A década de 1990 viu Clint Eastwood tornar-se um dos maiores astros do cinema, dirigindo grandes obras como Os Imperdoáveis (1992) e As Pontes de Madison (1995). Com Gran Torino, o diretor nos presenteia com uma bela obra, que pode ser a última em que atua.

Eastwood interpreta Walt Kowalski, um veterano ranzinza da Guerra da Coréia que resiste em se mudar de seu bairro, ocupado em grande parte por imigrantes, inclusive orientais. Preso a fantasmas da época da guerra, Walt colocará seus valores à prova quando envolver-se com uma família oriental, após salvar Thao (Bee Vang) de uma gangue também oriental. Nos 116 minutos de projeção assistiremos à reconciliação do ideal americano com a diversidade, num diálogo com o início da Era Obama.

Há vários elementos técnicos no filme que são o retrato de Clint. As cenas mais escuras, o jeito contido de filmar e o clima realista, tão bem trabalhado em Sobre Meninos e Lobos. Há cenas memoráveis, como a final, que só podem ter saído da cabeça do experiente cineasta. No entanto, há alguns cacoetes que decorrem do fato de em vários momentos o diretor não estar atrás das câmeras, como a pobreza de algumas interpretações. Mas nada disso compromete o resultado final, acredite.

Walt Kowalski representa todo o conservadorismo e patriotismo extremados norte-americanos. Ele literalmente rosna quando algo fere seus valores. O grande mérito da película é não deixar o personagem caricatural parecer inverossímel. Walt possui uma complexidade de caráter que o filme trabalha muito bem, seja nas relações com os orientais, seja na construção da vida do personagem, sempre cheia de nuances. No fim das contas, toda a história acaba sendo uma redenção do velho lobo por todos seus atos presentes e passados (principalmente). O que fortalece a empatia do personagem é a construção da amizade com orientais, o ponto alto do filme que rende cenas singelas.

Gran Torino é também um retrato da convivência de diversas minorias em um país onde a imigração teve (e ainda tem) um forte papel. Em diversos momentos vemos o confronto entre hispânicos, negros e orientais que, em teoria, estão na mesma situação frente à realidade do país. Esse panorama revela muito do que sempre foi a luta por direitos das minorias: cada grupo buscando concretizar seus direitos, sem movimentação conjunta. Todos esses movimentos, ao se focarem em uma perspectiva limitada, se esquecem de que a verdadeira luta é pela afirmação do ser humano em si contra as arbitrariedades do poder e da tradição.

Por outro lado, há vários elementos ideológicos que muitos vão adorar criticar, como a doutrina da dignidade do trabalho, a americanização do jovem Thao e os lugares-comuns sobre o que é ser homem. Vejo esses valores como parte da construção do personagem principal e, sinceramente, diante do belo resultado final da película, essas questões acabam superadas.

Clint Eastwood é um grande astro, mas não é unanimidade, o que sempre é bom para suscitar o debate. Eu, particularmente, sou um grande admirador de sua obra recente, que desde os anos 90 vem produzindo filmes memoráveis. Gran Torino é mais um desses exemplares, e que possui um tempero a mais: a metalinguagem. Walt é, em alguns aspectos, uma figura do fim da carreira de Clint, que provavelmente não mais atuará. Gran Torino é um bom filme, mas é difícil analisá-lo em si, pois ele esbanja o crepúsculo do ídolo.

3 Comentários

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3 Respostas para “Crítica: GRAN TORINO (2008)

  1. Ariane

    Gran Torino é simplesmente magnífico e emocionante!!!!!
    Clint Eastwood está perfeito e com uma atução que mais em forma (do que estava) seria impossivel !!!

  2. margarete

    Maravilhoso, imperdível, atuação do Clint mais perfeita do que nunca

  3. Pingback: Retrospectiva 2009: Parte 3 « Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos

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