Arquivo do mês: agosto 2009

Crítica: ANTICRISTO (2009)

O Mal e a Dor

O Mal e a Dor

Lars Von Trier é sinônimo de polêmica e de caretas e em Anticristo o diretor chega ao feito de expulsar algumas pessoas da sala do cinema. Talvez o longa mais conhecido do diretor pelo grande público seja Dogville, com Nicole Kidman, que tem muita inovação e pouca aceitação pela maioria dos expectadores.  Von Trier é um cineasta experimental, totalmente marcado por seu próprio “eu”, criador de obras que instigam a plateia a pensar de onde raios o diretor tirou aquelas ideias. Neste quesito, Anticristo vai ainda mais longe. Se você tem problemas com cenas fortes, feche os olhos no terço final do filme.

Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg interpretam um casal que acaba de perder o filho pequeno. Por um descuido extasiante, enquanto os dois faziam sexo, a criança pula pela janela de onde moram. A partir daí, Charlotte desenvolve um quadro agudo de ansiedade e o marido, terapeuta, resolve levá-la para a floresta do Éden (o nome já nos indica algo que descobriremos ao fim do filme), onde possuem uma casa de campo. Diante deste argumento, Von Trier desenvolve uma narrativa psicológica e perturbadora.

Anticristo é mais um daqueles filmes em que a temática nos envolve tanto que fica difícil prestar atenção na parte técnica. Ainda assim, é possível perceber a beleza da filmagem do diretor, que oscila entre o onírico idealista e a câmera fechada e sufocante, de um realismo que incomada. O casal também faz bonito e se entrega de corpo, muito corpo, e alma aos papéis difíceis e esféricos, que exigem muito dos atores. Gainsburg levou o prêmio de melhor atriz no festival de Cannes, onde o filme levantou muita polêmica e ira dos setores mais conservadores (e até de alguns “liberais”). Não era para menos.

O sexo redime ou condena?

O sexo redime ou condena?

O longa é simbolismo puro e há dezenas de cenas que poderiam ser citadas para mostrar isso. Destaco duas que refletem a dor da perda do filho pelo pai, que parece não estar se importando com o fato (apenas parece). Uma delas é a águia comendo o próprio filhote, a outra é o veado que possui metade de um filhote parido e podre preso a seu corpo. Outra cena controversa e que gerou muitas reaçõs é a da raposa falante, de que gostei muito, mas que provocou várias risadas (né?). Entre realidade e ficção, a narrativa que é dividida em capítulos evolui de forma angustiante e sufocante, sem mostrar cenas de terror gore, reservadas apenas ao final. Este é um ponto positivo do longa: ele se mantém no mero terror psicológico; quando as piores cenas chegam às telas, já estamos incomodados há tempos.

Cuidado, alguns SPOILERS. Mais ao final, descobrimos certas verdades que mudam completamente nossa visão sobre o filme; é essa a abordagem pela qual Von Trier foi tão criticado. A um primeiro momento, pela visão do diretor, a mulher em si pode ser comparada ao demônio e levar o nome de Anticristo? Sob uma leitura artificial, sim. Mas há pontos no longa que nos mostram que o vilão da história é o ser humano, e não a mulher. Essa é a principal lição que tiramos da contradição humanidade x natureza, presente em todo o longa. Ao final, com os três animais sorridentes, descobrimos que a maldade vem do ser humano hobbesiano, não da natureza amoral. Contudo, o diretor escolhe retratar a temática pelo foco feminino, o que gerou controvérsias compreensíveis.

Anticristo, assim como outras obras de Lars Von Trier permite múltiplas leituras que não se esgotam em uma única sessão (nem em duas, três ou quatro). Polêmico, simbólico, nu e cru, o filme polarizou opiniões e pode causar asco ou fascínio. De qualquer modo, fica impossível negar a importância de Von Trier para o cinema contemporâneo e o poder deste filme sobre o qual escrevo. Se você aguentar o sufoco, não perca a oportunidade e corra ao cinema!

[Decido esta crítica ao Misawa e à Bia, que me acompanharam nesta aventura de assistir a Anticristo]

UPDATE: Veja também esta interessante postagem do CineButeco, que compara Anticristo a O Iluminado.

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Cinema Chileno em São Paulo

Festival

Olá pessoal!

Recebi um comunicado dos organizadores do “II Festival de Cinema Chileno em São Paulo”, a ocorrer entre os dias 27 de Agosto e 03 de Setembro na Reserva Cultural. Divulgo o evento por aqui por ser uma das raras oportunidades que temos de conferir filmes de fora do circuito oficial. Muitas vezes, entre esses filmes de pouquíssima distribuição ou fama no mercado, há verdadeiras jóias, como conferi no I SP Terror: Festival Internacional. Assim, recomendo àqueles que puderem reservar um tempinho nesses dias mais esse evento do mundo cinematográfico.

Para quem quiser saber mais, o site do festival oferece mais detalhes, incluindo a programação e informações sobre os filmes, além de possuir um blog com algumas postagens interessantes, como a história resumida do Cinema Chileno. O Festival é fomentado pelo Pro/Chile, órgão ligado ao governo do país.

Estou bem ocupado por esses dias, mas vou tentar conferir pelo menos um filme e comento por aqui!

Abraços a todos.

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Crítica: A ONDA (2008)

“Nos indivíduos, a loucura é algo raro – mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.”

Nietzsche

Heil Werner

Heil Werner

Fui ver A Onda sem meu caderninho e demorei para escrever sobre ele, de modo que não farei muitas considerações pontuais sobre o filme. Falarei do longa, que possui uma brasileira no elenco (Cristina do Rego), em seus aspectos gerais.

O nazismo vende. E bastante. Seja pelo fascínio que exerce sobre nós, seja por que gostaríamos de dissecá-lo e entendê-lo a ponto de não mais repeti-lo. O fato é que o tema já rendeu muito para o cinema, e A Onda investe nele por um caminho diferente. Adaptação de um livro que conta a experiência real de um professor, Rainer Wenger (Jüngen Vogel), que utiliza seus alunos para mostrar que a emergência de um regime totalitário entre nós é possível. A Onda é um bom filme, mas que tem alguns cacoetes que comprometem o resultado final.

Entender como regimes totalitários emergiram na Europa na primeira metade do século XX é uma tarefa que temos tentado empreender a 50 anos e ainda não esgotamos o asssunto. Não é possível dar uma explicação pontual e definitiva, por que o momento histórico é feito de um sem número de fatores. Coincidentemente, estou lendo “As origens do totalitarismo”, de Hannah Arendt, que faz uma análise brilhante e minuciosa do cenário europeu da época enfocando o Direito e a organização política dos Estados europeus. Recomendo! A Onda aposta na psicologia de massas e um pouco na sociologia o que, definitivamente, não esgota o assunto.

Mostrando brevemente o ambiente familiar de alguns dos alunos, o filme prepara o terreno para a encrenca, já que muitos deles vêm de famílias desestruturadas. A ideia é aceitável, mas pode escorregar: seres humanos autoritários não vêm só de famílias problemáticas. Por outro lado, o professor, no decorrer dos dias, monta suas aulas de maneira a criar um verdadeiro movimento totalitário. Cria lemas sonoros, saudações, uniformes e uma ideologia vazia em comum a todos. Os alunos vão perdendo sua individualidade e sujeitando-se ao domínio do grupo, hostilizando aqueles que discordam de suas posições. Quando o movimento começa a sair do controle, Wenger não põe fim ao grupo, pois cai na própria armadilha: fingindo-se de líder dos alunos, a adoração vai fundo em seu ego a ponto de cegá-lo para o que está ocorrendo. Enfim, o enfoque do filme é válido, mas não pode ser visto como a única forma de explicar o nazismo.

O problema é que o diretor Dennis Gansel constrói a narrativa de modo que assistimos quase a uma tese de doutorado. Algumas mudanças de atitudes dos alunos não convencem, outras situações são forçadas demais e o roteiro progride de forma pouco fluida. É quase possível escutar as engrenagens se mexendo durante a exibição. É fato que a história é, na verdade, uma tese, mas sua transposição para o cinema poderia ter sido menos científica. Afinal, Cinema e História podem muito bem se misturar, mas possuem linguagens muito diferentes. A Onda não chega a cansar a audiência, mas não nos convence em muitos pontos. Ainda assim, recomendo.

“As convicções são inimigos da verdade bem mais perigosos que as mentiras.”

Nietzsche

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Carreira: Meryl Streep [4]

Um talento que abraça o mundo

Um talento que abraça o mundo

Leia primeiro a Parte 1, a Parte 2 e a Parte 3.

Desde As Pontes de Madison, quando Meryl Streep provou que ainda tinha fôlego para encarar Hollywood de frente, a atriz vem interpretando papéis maduros que, talvez, sejam os melhores de toda a sua carreira ao lado de Sofia e Helen Archer. Ainda assim, desde 1983, Streep nunca mais recebeu Oscar algum. Alguns argumentam que o Oscar não é um prêmio para ser levado a sério, o que não encerra discussão, uma vez que a estatueta dourada é o prêmio de maior visibilidade mundial. Teria Meryl se tornado a eterna indicada, a competente atriz que produz belos trabalhos mas que nunca mais conseguiu alcaçar o ápice da interpretação? Ou a Academia teria apenas reconhecido que Streep já alcançou patamares lendários e que seria melhor agraciar outras atrizes com o prêmio? Deixo as questões para meus leitores. De todo modo, este último texto biográfico tentará mostrar que Meryl fez outros trabalhos dignos da estatueta e lançará a pergunta que encerrou o texto anterior: a crescente popularização desta atriz será seu crepúsculo?

Just Streep

Just Streep

Em 2002, Streep interpreta Susan Orlean no filme introspectivo Adaptação, ótimo papel que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante depois de 23 anos. Mas foi em As Horas, um dos melhores filmes da primeira década do novo século, que Streep nos entregou mais um papel primoroso, de uma profudidade que poucas atriz conseguiriam expressar. Clarissa é uma mulher frágil e poderosa, que nos brinda com uma pérola do cinema moderno: I remember one morning getting up at dawn, there was such a sense of possibility. You know, that feeling? And I remember thinking to myself: So, this is the beginning of happiness. This is where it starts. And of course there will always be more. It never occurred to me it wasn’t the beginning. It was happiness. It was the moment. Right then.

Em 2004, Meryl participa da adaptação Desventuras em Série, como a excêntrica Tia Josephine, personagem plana que ganha vida nas mãos de Streep. Subestimado, Desventuras é um belo e artístico filme, apesar da temática deveras juvenil. No mesmo ano, a atriz interpreta a vilã de Sob Domínio do Mal, Eleanor Shaw, que deixaria Miranda Priestley no chinelo. Também subestimado, o filme é um perturbante thriller político e, confesso, é o longa graças ao qual comecei a apreciar o talento de Meryl Streep. No ano seguinte, a mediana comédia Terapia do Amor nos lembra de seu talento para comédia, esquecido desde A Morte Lhe Cai Bem.

No ano de 2006, dois prodígios. Em A Última Noite, o belo e singelo último filme de Robert Altman, Meryl canta várias canções no mesmo longa, feito inédito e que revela seu talento para a música, que seria aproveitado em Mamma Mia! O fato é que, espalhados por diversos trabalhos, Meryl possui mais de trinta canções, das quais falarei separadamente em outra oportunidade. Em O Diabo Veste Prada, Streep dá vida a um novo ícone, a vilã-nem-tão-vilã-assim, Miranda Priestley, que a colocou denovo nas graças do grande público. O sucesso do filme garantiu uma nova geração de fãs para Meryl Streep, alçando-a à popularidade (talvez maior ainda) que possuía na década de 1980. A décima quarta indicação ao Oscar e uma de suas chances mais reais. Ficou só na chance, a estatueta foi para Helen Mirren.

Don, Meryl, Louisa

Don, Meryl, Louisa

Nos últimos dois anos, uma enxurrada de filmes. Em 2007, Fúria pela Honra, Leões e Cordeiros, O Suspeito e Ao Entardecer, nenhum deles de grande projeção. Em 2008, o mega fenômeno, o musical mais brega e mais animado da história, um paradoxo: Mamma Mia!, que trouxe outra leva de fãs à atriz. Também neste ano, Dúvida, um longa inteligente e bem montado e que lhe trouxe a décima quinta indicação ao Oscar. Para 2009, já esperamos Julie & Julia e It´s complicated.

Dois anos, oito filmes. Em poucas palavras, dentro da lógica de mercado, os estúdios perceberam que Meryl Streep ainda pode dar muito dinheiro. Só Mamma Mia! e O Diabo Veste Prada renderam, juntos, quase um bilhão de dólares. Em época de crise, Streep é rendimento certo. Sorte dos fãs e das audiências de cinema, que podem continuar a apreciar o trabalho da maior atriz viva e quiçá da história de todo o cinema.

A grande questão que se coloca para o futuro é, mais uma vez: será a popularidade de Streep seu crepúsculo, seu respiro final? Afinal, é sabido que o grande público simplesmente enjoa de atores que dão muito as caras nas grandes telas. E quanto mais Streep se populariza, mais papeis mercadológicos acaba escolhendo, o que a distancia da excelência que lhe é devida. E agora, alguém se arrisca a opinar sobre estas questões?

Mais uma vez agradeço a todo o apoio do pessoal da comunidade Meryl Streep – Brasil. Abraços!

See you soon...

See you soon...

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Crítica: À DERIVA (2009)

Água e Pureza

Água e Pureza

Nos primeiros momentos de À Deriva, já podemos perceber que se trata de um filme diferenciado, não somente em relação à safra de comédias pastelão que domina o cinema nacional (Se Eu Fosse Você 2, Mulher Invisível, Os Normais 2), mas em relação à grande maioria dos filmes que vemos no cinema. Perdoem-me por não fazer a sinopse do fime, mas esse texto já vai ficar muito extenso! Em filmes sensíveis e introspectivos como À Deriva, é difícil analisar com isenção aspectos técnicos da produção, pois a beleza e a força da história nos envolvem por inteiro. A emoção acaba nublando a razão, o que nem sempre é um mau negócio.

Ainda assim, notei que a produção do longa tem vários pontos positivos (e conta com o dedo de Fernando Meirelles). Heitor Dhalia se consolida como promessa do cinema brasileiro, ao mostrar que também pode criar e dirigir dramas densos e histórias sutis (o trabalho anterior do diretor foi O Cheiro do Ralo, de 2006). O diretor conduz o elenco extremamente entrosado com maestria e cria belos planos com a câmera que parece sempre estar sondando a intimidade dos personagens. A fotografia também tem seus méritos em matéria de iluminação dos cenários e em plasticidade, o que cria belas tomadas, como a inicial, em que Felipa (Laura Neiva, ótima) e o pai (Vincent Cassel) bóiam na água.

Mas a força da película está em sua temática, que tem sido mal interpretada e subestimada por muitas resenhas. Não há nada de épico em À Deriva e a história é, realmente, banal. Mas o trunfo do filme está justamente em transformar a vida familiar de uma típica adolescente em uma história poderosa, sensível e, eu diria, arrebatadora.  Basta olhar um pouco mais fundo. Do ponto de vista psicológico, Felipa é o exemplo da tênue linha que separa infância, adolescência e a vida adulta. Quatro cenas sintetizam o processo: por trás da cortina, o véu da inocência. Em cima da árvore, o crescimento. O uso de maquiagem, o amadurecimento. Ao fim do filme, ao sair do barco, finalmente a vida adulta. À Deriva mostra todo esse caminho e nos lembra de que ele não é uniforme nem retilíneo.

A relação de Felipa com o pai é o termômetro disso tudo. Na cena inicial, na bóia,  Felipa é uma criança. Ao longo do filme, ao descobrir que seu pai pode desejar outra mulher que não sua mãe, começam a despertar seus desejos sexuais. O papel de Ângela (Camila Belle), a amante, é fundamental e não é à toa que as maquiagens que Felipa usa em um momento são oferecidas por ela. Ao mesmo tempo, porém, no exercício de sua própria experiência e observando sua casa, os ímpetos sexuais da menina são freados, o que resulta, se me permitem a expressão, numa espécie de dialética do desejo, oscilação entre desejo e repulsa. Quando descobre certo fato sobre sua mãe, Felipa despe-se de seus preconceitos e abandona a reprovação ao sexo masculino, que vinha das atitudes do pai, e finalmente pode crescer. Ao fim do filme, novamente boiando, pai e filha sabem que não são mais homem e menina, mas homem e mulher. À Deriva mostra tudo isso e muito mais com extrema sutileza e sensibilidade, pautadas em uma bela trilha sonora e atuações à altura.

Fugindo do risco de cair em exageros, o filme de Heitor Dhalia não escorrega e mantém te(n)são na medida certa, ao fugir de moralismo ou exibicionismo barato. Mais que um fôlego para o cinema nacional, o filme cria catarse a partir do cotidiano e já é um dos melhores filmes do ano. Para ver além da superfície e mergulhar nos mistérios da vida humana, À Deriva é do tamanho de quem o assiste. Para ver, rever e ser degustado aos poucos…

PS.: Gostaria de falar bem mais de À Deriva, mas esse texto já ficou grande demais!

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Carreira: Meryl Streep [3]

Ah, esses óculos

Ah, esses óculos

Leia primeiro a Parte 1 e a Parte 2.

Diz a lenda que, certa vez, Meryl Streep recebeu uma carta de Bette Davis, na qual a diva do cinema americano relatava sentir que Meryl seria a próxima primeira dama da sétima arte. Coincidência ou não, Bette Davis morreu em 1989, mesmo ano em que Streep completou 40 anos, a prova de fogo de sua carreira, que alçaria um voo ainda maior que na década de 1980, levando-a ao topo do topo.

Nenhuma carreira se desenvolve à parte da História, e com Meryl não foi diferente. Aos 40 e diante de um futuro incerto, Streep participou entre 1989 e 1995 de várias produções “sessão da tarde”, que funcionaram como uma espécie de garantia de dinheiro fácil. Já em 1989, vemos o super rosa Ela é o Diabo e no ano seguinte, Lembranças de Hollywood, em que Meryl solta a voz novamente e contracena com Shirley MacLaine. Com mais uma indicação ao Oscar, Streep passará o maior tempo de sua carreira sem ser indicada novamente, 5 anos. Em 1991, Meryl vai ao outro mundo (literalmente) na comédia romântica Um Visto Para o Céu, filme de ideia original, mas que não convence muito.

Meryl e o marido, Don, há muito tempo...

Meryl e o marido, Don, há muito tempo...

Em 1992, a hilariante comédia  A Morte lhe Cai Bem, com Bruce Willis. Geralmente subestimado, o filme é uma grande crítica à perseguição da juventude eterna. De efeitos especiais muito modernos para a época, Meryl muitas vezes gravava as cenas com uma toca azul cobrindo toda a cabeça. Certo dia, a mãe da atriz visitou os sets de filmagem e não pestanejou: “eles te pagam tudo isso só pra você esconder o rosto atrás desse pano?!”. No ano seguinte, Streep participa da adapatação do romance de Isabel Allende, A Casa dos Espíritos, filme histórico e sensível sobre o golpe que derrubou Salvador Allende e instaurou a ditadura militar chilena. As cenas divididas com Glenn Close valem o filme. Em 1994, o mais sessão da tarde de todos os longas, O Rio Selvagem, aventura leve e despretensiosa que tem um ponto forte: Meryl apararece quase em todas as cenas do filme!

Em 1995, Meryl Streep refaz as pazes com a crítica e com o público ao encarnar com toda sua sensibilidade a italiana Francesca, em As Pontes de Madison, junto a Clint Eastwood num dos romances mais avassaladores e famosos da história recente do cinema. Com mais uma indicação ao Oscar, Streep iguala a marca de Bette Davis. Francesca é, na visão de muitos, um dos papeis que certamente teria dado a estatueta dourada para Meryl. Destaque para a cena do carro na chuva, referência em dramaticidade.

Nos dois anos seguintes, Antes e Depois e As Filhas de Marvin. O primeiro, um suspense sem graça e o segundo um drama mediano, em que Meryl surpreendentemente não se destaca muito.  Mas é em 1998 que Streep mostra seu talento ao compor Kate, a mais velha de cinco irmãs em A Dança das Paixões, filme singelo e bucólico sem grandes pretensões. É também neste ano que Streep nos presenteia com um de seus melhores personagens, outra Kate, em Um Amor Verdadeiro. Complexa e profunda, Kate tira forças do talento imenso de Streep que a cada novo papel mostra que não conhece barreiras. Mais uma indicação ao Oscar. Só para colocar lenha na fogueira: como pode Gwyneth Paltrow levar o Oscar em uma categoria em que concorriam Meryl Streep pelo papel de Kate, Fernanda Montenegro por Central do Brasil e Cate Blanchett por Elizabeth? No ano seguinte, Meryl faz Música do Coração, filme simples e gostoso de se ver e que lhe rende a décima segunda indicação ao Oscar, igualando a marca de outra lenda do cinema: Katherine Hepburn.

Durante a próxima década, Meryl Streep ainda surpreenderá a todos em performances marcantes e interpretações musicais surpreendentes. A primeira década do século XXI reservou a Meryl as melhores interpretações de sua carreria, o amadurecimento que a transformou no gênio além do gênio da juventude. E como se não bastasse, Streep cairá novamente no gosto do grande público e dos grandes estúdios, rendendo bilheterias quase na faixa dos bilhões, feito inacreditável para uma atriz na casa dos 60 anos. A pergunta que fica no ar é: a popularização de Meryl Streep será também seu crespúsculo? Isso é assunto para o próximo e último texto.

Leia também a parte 4.

Meryl em Um Amor Verdadeiro

Meryl em Um Amor Verdadeiro

Dedico esta postagem a Die, dona da comunidade Meryl Streep – Brasil e que se tornou fã da Meryl em 1998, graças a este maravilhoso filme que é Um Amor Verdadeiro…

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Entre Margo e Margot

Margo e Eve. Detalhe ao fundo: Marilyn Monroe

Margo e Eve. Detalhe ao fundo: Marilyn Monroe

Disque M para Matar a Malvada

Com o perdão da pobre assonância,  esses dias assisti a dois clássicos, no sentido maior da palavra, do cinema: A Malvada (1950) e Disque M para Matar (1954). O primeiro, indicado a 14 Oscar (feito que só Titanic conseguiria 47 anos depois), um suspense de diálogos cortantes e cheios de referências. O segundo,  obra do mestre do suspense, Alfred Hitchcock. Separando Margo Channing (Bette Davis) e Margot Wending (Grace Kelly) há mais que apenas 4 anos da História do Cinema, há toda uma concepção diversa de bons filmes. Não há que se fazer crítica de tais filmes, imortalizados por sua própria excelência, mas apenas apontar os caminhos que os tornaram clássicos.

A Malvada aposta em personagens esféricos e complexos e disserta sobre temas variados. Margo Channing carrega um mundo todo por trás dos olhos de Bette Davis, um dos mais expressivos que o Cinema já conheceu. Anne Baxter nos entrega Eve Harrington no ponto certo, oscilando entre a inocência e maldade que seu papel de anti-heroína exige.  Aliás o título original do filme é um trocadilho: All about Eve (Tudo sobre Eve) tem o som muito parecido com All about Evil, que significa Tudo sobre o mal. Contando com diálogos muito inteligentes e cheios de refências à história do Cinema e do Teatro, A Malvada possui um roteiro brilhante e cheio de sutilezas (como na cena em que Eve conversa DeWitt no banheiro) que os transporta a um mundo onde Hollywood começava a se tornar um gigante.

Disque M para Matar, que já traz o peso das mãos de Hitchcock, se desenvolve por um caminho diferente, mas igualmente avassalador. Suspense policial e adaptado do teatro, a ação se desenrola praticamente dentro de um único cômodo, o que torna o filme dependende dos diálogos e da tensão natural da situação que vemos. E nisso Hitchcock é o mestre. Não há tempo para aprofundar personagens, é verdade, mas a engenhosidade do roteiro e da direção consegue nos prender à história do começo ao fim e, de repente, todos os detalhes fazem sentido e compõe um maravilhoso quadro. Hoje, vivemos em tempos que o suspense exige música alta e situações perigosíssimas para prender a audiência. Hithcock consegue o mesmo efeito sem recorrer a tais malabarismos.

O que há entre Margo (1950) e Margot (1954) além da Guerra da Coreia? Há uma grande diferença da maneira de fazer bons filmes. De um lado, personagens esféricos, conflitos humanos e atores poderosos. De outro, roteiro intrincado, suspense policial e ação pautada em diálogos que, pouco a pouco, revelam o conteúdo do filme. Nesse sentido, A Malvada é conteudo e forma em equlíbrio perfeito;  Disque M para Matar é pura forma que, bem trabalhada, cria um belo conteudo. Paradoxal? Talvez, mas recomendo muito assistir aos dois para entender do que falo.

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