Entre Margo e Margot

Margo e Eve. Detalhe ao fundo: Marilyn Monroe

Margo e Eve. Detalhe ao fundo: Marilyn Monroe

Disque M para Matar a Malvada

Com o perdão da pobre assonância,  esses dias assisti a dois clássicos, no sentido maior da palavra, do cinema: A Malvada (1950) e Disque M para Matar (1954). O primeiro, indicado a 14 Oscar (feito que só Titanic conseguiria 47 anos depois), um suspense de diálogos cortantes e cheios de referências. O segundo,  obra do mestre do suspense, Alfred Hitchcock. Separando Margo Channing (Bette Davis) e Margot Wending (Grace Kelly) há mais que apenas 4 anos da História do Cinema, há toda uma concepção diversa de bons filmes. Não há que se fazer crítica de tais filmes, imortalizados por sua própria excelência, mas apenas apontar os caminhos que os tornaram clássicos.

A Malvada aposta em personagens esféricos e complexos e disserta sobre temas variados. Margo Channing carrega um mundo todo por trás dos olhos de Bette Davis, um dos mais expressivos que o Cinema já conheceu. Anne Baxter nos entrega Eve Harrington no ponto certo, oscilando entre a inocência e maldade que seu papel de anti-heroína exige.  Aliás o título original do filme é um trocadilho: All about Eve (Tudo sobre Eve) tem o som muito parecido com All about Evil, que significa Tudo sobre o mal. Contando com diálogos muito inteligentes e cheios de refências à história do Cinema e do Teatro, A Malvada possui um roteiro brilhante e cheio de sutilezas (como na cena em que Eve conversa DeWitt no banheiro) que os transporta a um mundo onde Hollywood começava a se tornar um gigante.

Disque M para Matar, que já traz o peso das mãos de Hitchcock, se desenvolve por um caminho diferente, mas igualmente avassalador. Suspense policial e adaptado do teatro, a ação se desenrola praticamente dentro de um único cômodo, o que torna o filme dependende dos diálogos e da tensão natural da situação que vemos. E nisso Hitchcock é o mestre. Não há tempo para aprofundar personagens, é verdade, mas a engenhosidade do roteiro e da direção consegue nos prender à história do começo ao fim e, de repente, todos os detalhes fazem sentido e compõe um maravilhoso quadro. Hoje, vivemos em tempos que o suspense exige música alta e situações perigosíssimas para prender a audiência. Hithcock consegue o mesmo efeito sem recorrer a tais malabarismos.

O que há entre Margo (1950) e Margot (1954) além da Guerra da Coreia? Há uma grande diferença da maneira de fazer bons filmes. De um lado, personagens esféricos, conflitos humanos e atores poderosos. De outro, roteiro intrincado, suspense policial e ação pautada em diálogos que, pouco a pouco, revelam o conteúdo do filme. Nesse sentido, A Malvada é conteudo e forma em equlíbrio perfeito;  Disque M para Matar é pura forma que, bem trabalhada, cria um belo conteudo. Paradoxal? Talvez, mas recomendo muito assistir aos dois para entender do que falo.

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