Crítica: À DERIVA (2009)

Água e Pureza

Água e Pureza

Nos primeiros momentos de À Deriva, já podemos perceber que se trata de um filme diferenciado, não somente em relação à safra de comédias pastelão que domina o cinema nacional (Se Eu Fosse Você 2, Mulher Invisível, Os Normais 2), mas em relação à grande maioria dos filmes que vemos no cinema. Perdoem-me por não fazer a sinopse do fime, mas esse texto já vai ficar muito extenso! Em filmes sensíveis e introspectivos como À Deriva, é difícil analisar com isenção aspectos técnicos da produção, pois a beleza e a força da história nos envolvem por inteiro. A emoção acaba nublando a razão, o que nem sempre é um mau negócio.

Ainda assim, notei que a produção do longa tem vários pontos positivos (e conta com o dedo de Fernando Meirelles). Heitor Dhalia se consolida como promessa do cinema brasileiro, ao mostrar que também pode criar e dirigir dramas densos e histórias sutis (o trabalho anterior do diretor foi O Cheiro do Ralo, de 2006). O diretor conduz o elenco extremamente entrosado com maestria e cria belos planos com a câmera que parece sempre estar sondando a intimidade dos personagens. A fotografia também tem seus méritos em matéria de iluminação dos cenários e em plasticidade, o que cria belas tomadas, como a inicial, em que Felipa (Laura Neiva, ótima) e o pai (Vincent Cassel) bóiam na água.

Mas a força da película está em sua temática, que tem sido mal interpretada e subestimada por muitas resenhas. Não há nada de épico em À Deriva e a história é, realmente, banal. Mas o trunfo do filme está justamente em transformar a vida familiar de uma típica adolescente em uma história poderosa, sensível e, eu diria, arrebatadora.  Basta olhar um pouco mais fundo. Do ponto de vista psicológico, Felipa é o exemplo da tênue linha que separa infância, adolescência e a vida adulta. Quatro cenas sintetizam o processo: por trás da cortina, o véu da inocência. Em cima da árvore, o crescimento. O uso de maquiagem, o amadurecimento. Ao fim do filme, ao sair do barco, finalmente a vida adulta. À Deriva mostra todo esse caminho e nos lembra de que ele não é uniforme nem retilíneo.

A relação de Felipa com o pai é o termômetro disso tudo. Na cena inicial, na bóia,  Felipa é uma criança. Ao longo do filme, ao descobrir que seu pai pode desejar outra mulher que não sua mãe, começam a despertar seus desejos sexuais. O papel de Ângela (Camila Belle), a amante, é fundamental e não é à toa que as maquiagens que Felipa usa em um momento são oferecidas por ela. Ao mesmo tempo, porém, no exercício de sua própria experiência e observando sua casa, os ímpetos sexuais da menina são freados, o que resulta, se me permitem a expressão, numa espécie de dialética do desejo, oscilação entre desejo e repulsa. Quando descobre certo fato sobre sua mãe, Felipa despe-se de seus preconceitos e abandona a reprovação ao sexo masculino, que vinha das atitudes do pai, e finalmente pode crescer. Ao fim do filme, novamente boiando, pai e filha sabem que não são mais homem e menina, mas homem e mulher. À Deriva mostra tudo isso e muito mais com extrema sutileza e sensibilidade, pautadas em uma bela trilha sonora e atuações à altura.

Fugindo do risco de cair em exageros, o filme de Heitor Dhalia não escorrega e mantém te(n)são na medida certa, ao fugir de moralismo ou exibicionismo barato. Mais que um fôlego para o cinema nacional, o filme cria catarse a partir do cotidiano e já é um dos melhores filmes do ano. Para ver além da superfície e mergulhar nos mistérios da vida humana, À Deriva é do tamanho de quem o assiste. Para ver, rever e ser degustado aos poucos…

PS.: Gostaria de falar bem mais de À Deriva, mas esse texto já ficou grande demais!

4 Comentários

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4 Respostas para “Crítica: À DERIVA (2009)

  1. Pingback: Filme da Semana « Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos

  2. D.Vieira

    O longa À DERIVA é um filme de repercursão internacional…Beleza..>Ainda não tive a oportunidade de assistir o filme, talvez até mesmo me faltou interesse em assistir um filme que usa imagens de um lugar e sai vendendo como se fosse outro…Muitas cenas do filme (como a da foto usada nesta página) foram feitas em Arraial do Cabo – situada também na Região dos lagos – que é considerada o primo pobre de Búzios e Cabo Frio…É uma pena ver que grandes produções preferem vender nomes de quem já está por cima utilizando de belezas e qualidades de um outro lugar…Infelizmente pessoas envolvidas com cinema – profissionais, amadores ou simplesmente amantes – criaram uma aversão ao longa por este fato…A cidade de Arraial do Cabo, também uma cidade turística, não tem nenhuma citação ou crédito por ter sediado as filmagens de um longa de tanta importância..É uma pena que grandes profissionais contribuam com essa injustiça que é feita..Em nosso dia a dia também…Onde empresas turísticas buzianas vendem passeios à Arraial do Cabo como se a cidade fosse continuidade do município de Búzios…As belezas de Arraial são incomparáveis e nós, moradores cabistas, estamos lutando para que a cidade seja reconhecida e que injustiças como a do longa não ocorram mais…E que venha o SUDOESTE!!!

  3. Se o exposto na postagem realmente confere, é uma grande injustiça mesmo. Obrigado pelas informações.

    Abraços,
    Renan

  4. Oi, Renan! Tudo bom?
    Encontrei um sujeito que plagiou esta sua crítica e achei que você gostaria de saber disso: http://jonathascool.blogspot.com/2010/08/aprovado-deriva-2009.html

    Abraço!

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