Crítica: A ONDA (2008)

“Nos indivíduos, a loucura é algo raro – mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.”

Nietzsche

Heil Werner

Heil Werner

Fui ver A Onda sem meu caderninho e demorei para escrever sobre ele, de modo que não farei muitas considerações pontuais sobre o filme. Falarei do longa, que possui uma brasileira no elenco (Cristina do Rego), em seus aspectos gerais.

O nazismo vende. E bastante. Seja pelo fascínio que exerce sobre nós, seja por que gostaríamos de dissecá-lo e entendê-lo a ponto de não mais repeti-lo. O fato é que o tema já rendeu muito para o cinema, e A Onda investe nele por um caminho diferente. Adaptação de um livro que conta a experiência real de um professor, Rainer Wenger (Jüngen Vogel), que utiliza seus alunos para mostrar que a emergência de um regime totalitário entre nós é possível. A Onda é um bom filme, mas que tem alguns cacoetes que comprometem o resultado final.

Entender como regimes totalitários emergiram na Europa na primeira metade do século XX é uma tarefa que temos tentado empreender a 50 anos e ainda não esgotamos o asssunto. Não é possível dar uma explicação pontual e definitiva, por que o momento histórico é feito de um sem número de fatores. Coincidentemente, estou lendo “As origens do totalitarismo”, de Hannah Arendt, que faz uma análise brilhante e minuciosa do cenário europeu da época enfocando o Direito e a organização política dos Estados europeus. Recomendo! A Onda aposta na psicologia de massas e um pouco na sociologia o que, definitivamente, não esgota o assunto.

Mostrando brevemente o ambiente familiar de alguns dos alunos, o filme prepara o terreno para a encrenca, já que muitos deles vêm de famílias desestruturadas. A ideia é aceitável, mas pode escorregar: seres humanos autoritários não vêm só de famílias problemáticas. Por outro lado, o professor, no decorrer dos dias, monta suas aulas de maneira a criar um verdadeiro movimento totalitário. Cria lemas sonoros, saudações, uniformes e uma ideologia vazia em comum a todos. Os alunos vão perdendo sua individualidade e sujeitando-se ao domínio do grupo, hostilizando aqueles que discordam de suas posições. Quando o movimento começa a sair do controle, Wenger não põe fim ao grupo, pois cai na própria armadilha: fingindo-se de líder dos alunos, a adoração vai fundo em seu ego a ponto de cegá-lo para o que está ocorrendo. Enfim, o enfoque do filme é válido, mas não pode ser visto como a única forma de explicar o nazismo.

O problema é que o diretor Dennis Gansel constrói a narrativa de modo que assistimos quase a uma tese de doutorado. Algumas mudanças de atitudes dos alunos não convencem, outras situações são forçadas demais e o roteiro progride de forma pouco fluida. É quase possível escutar as engrenagens se mexendo durante a exibição. É fato que a história é, na verdade, uma tese, mas sua transposição para o cinema poderia ter sido menos científica. Afinal, Cinema e História podem muito bem se misturar, mas possuem linguagens muito diferentes. A Onda não chega a cansar a audiência, mas não nos convence em muitos pontos. Ainda assim, recomendo.

“As convicções são inimigos da verdade bem mais perigosos que as mentiras.”

Nietzsche

3 Comentários

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3 Respostas para “Crítica: A ONDA (2008)

  1. Vanessa

    Não acho que a intenção do filme era a de convencer algo, mas sim de mostrar como somos facilmente manipulados quando ouvimos aquilo que queremos ouvir e a predisposição que existe em nós de sermos goverdados.

    “Se Deus não existe, então tudo é permitido” (Dosto)

  2. Vinicius

    Queria entender o que você entende por “situações forçadas demais”, nó último parágrafo.

    Sua crítica, beira o mais rasteiro que se pode esperar de alguém que se propõe a tanto ao assistir um filme como esse.

    A analise mais óbvia, está um pouco mais coerente que esta que você nos propõe.

    A indicação de Hannh Arendt, você não precisava para tentar dar credibilidade a um texto tão poeril.

    Se quiser, meu email está aí para uma réplica.

    • Vi o filme há tempos demais e não fiz anotações sobre ele, de modo que terei de responder de modo não muito acurado.

      Situações forçadas são aquelas que acontecem de hora para outra, sem aprofundamento psicológico e que assim o são porque o filme precisa de um desfecho e não tem tempo para aprofundar suas questões.

      Não é possível fazer análises aprofundadas em críticas de blog, porque não é esse o escopo do trabalho. Quem lê na internet, quase sempre não tem tempo para ler páginas e páginas sobre um filme. Até por isso, tampouco me propus a relacionar o filme á obra de Hannah Arendt, apenas apontei a correlação temática e indiquei a leitura.

      Agora, você deveria elaborar um pouco melhor sus frases, há algumas em que fica difícil entender o que você quer dizer. A começar pela retirada das vírgulas entre sujeito e predicado.

      Atenciosamente,
      Renan

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