Arquivo do mês: outubro 2009

33ª Mostra Internacional: CZAR & LA VIDA LOCA

Czar

Czar

Hoje fui até a Reserva Cultural assistir à grande obra que é Czar (Rússia, 2009), de Pavel Lungin. Ainda dentro da sala de cinema, ouvi uma balburdia estranha e desconfiei de que algo estava errado. Ao sair da exibição surpresa, várias emissoras de TV, incluindo a RedeTV! com o Pânico, entrevistando várias chacretes. Estreia de Alô, Alô Terezinha. Assistam ao Pânico no domingo à noite e, se puderem, me achem por lá!

Brincadeiras à parte, Czar é uma bela obra. O Filme retrata o período em torno do ano de 1565, durante o reinado do Czar Ivan, o terrível, retratado no filme como um homem, no mínimo, perturbado. Mas quem rouba as atenções é o  complexo personagem do Patriarca, magistralmente interpretado por Oleg Yankovskiy. O roteiro é bem amarrado e suscita inúmeras questões religiosas e morais, em meio a um período conturbado que envolve a guerra entre russos e poloneses. Película densa, direção competente, um belo retrato da Idade Média russa, que prende a atenção do começo ao fim e arrepia até o último fio de cabelo.

La Vida Loca

La Vida Loca

La Vida Loca é um documentário e segue uma linha quase que inteiramente expositiva, uma sucessão de imagens que parece não fazer um juízo analítico. Mas, como bem discuti com a Mari, não é possível ser meramente expositivo sem ser analítico, pois a própria escolha do que vai compor o filme já denota um juízo parcial e, portanto, analítico. O longa mostra o dia a dia de membros de uma gangue que atua na América Central. O documentário foi dirigido por Christian Poveda, assassinado em setembro deste ano, possivelmente por membros dessas gangues, o que já nos impele a prestar atenção ao que vemos, afinal, ninguém é assassinado à toa. De qualquer modo, apesar de não ter um ritmo muito legal, La Vida Loca suscita questões interessantes sobre a eficácia do direito e as finalidades das penas de prisão.

Amanhã tem mais!

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em 33ª Mostra

Salve os Bastardos do Distrito 9!

Em meio a Mostra Internacional de Cinema, resolvi fazer um post reunindo pequenos comentários sobre três filmes que vi durante a semana passada: Salve Geral, Bastardos Inglórios e Distrito 9.

Salve Geral

Salve Geral

O primeiro longa é, infelizmente, o brasileiro que vai nos representar na corrida pelo Oscar em 2010. Já adianto que a Academia deverá deixá-lo de lado, pois o filme tem uma série de problemas. Ninguém o recebeu bem, nem a crítica especializada, nem a comunidade de cinéfilos blogueiros. Salve Geral tem um roteiro superficial, que não consegue abordar a intrincada questão da segurança pública e das facções criminosas nos presídios. O longa deixa um sensação de impotência diante da realidade, mas não é crítico o suficiente para se sustentar. Se você quer fazer um filme que não ofereça finais felizes, tem que acertar a mão. Enfim, a direção de Sergio Rezende avança aos trancos e barrancos, de forma pouco fluida e também não consegue tirar boas atuações de um elenco que poderia oferecer bem mais do que vemos.

Bastardos Inglórios

Bastardos Inglórios

Bastardos Inglórios, mais um acerto de Quentin Tarantino, pode parecer lento e sem objetivos claros, mas é nos diálogos e na estrutura temporal que o longa mostra sua mágica. Não é segredo que Tarantino possui um talento descomunal para construir diálogos antológicos, que dão vida a muitos de seus filmes. A lentidão de Bastardos se transforma em puro deleite. Outra questão interessante no longa é o tempo, que parece se protrair de maneira misteriosa, apurando ainda mais o deleite criado pelas mãos do diretor. Não falarei de todas as referências que o filme faz, assunto batido nas críticas a respeito, mas sim do tapa que recebemos ao final do filme. Quem não se deliciou com a cena final no cinema, com a “vingança histórica” a que assistimos? Cuidado, podemos estar mais próximos dos nazistas do que supomos…

Distrito 9

Distrito 9

Distrito 9 veio com todo o peso do nome de Peter Jackson e com ar de inovação para a ficção científica. E o maior problema do longa é este. Os alienígenas do filme, pretexto para todas as críticas sociais que foram apontadas resenhas afora, são demasiadamente parecidos com humanos. A única coisa que os torna aliens é sua forma grotesca, de resto são humanos excluindo e fazendo mal a humanos, coisa que vemos todos os dias nos noticiários. Distrito 9 é legalzinho, apesar da queda de interesse pela película no terço final, mas não está com a bola toda. Na minha humilde visão, foi superestimado. Mas de uma coisa eu sei: não se trata de um filme de ficção. Afirmação polêmica, confesso.

Amanhã tem mais Mostra Internacional de Cinema!

11 Comentários

Arquivado em Crítica

33ª Mostra Internacional: A FITA BRANCA

A Fita Branca

A Fita Branca

Ontem assisti também ao grande vencedor do Festival de Cannes deste ano,  A Fita Branca, de Michael Haneke. Deixei para fazer um comentário especial sobre filme porque a produção realmente merece. Aliás, não há como assistir ao longa sem se lembrar da poderosa Hannah Arendt e seu livro Raízes do Totalitarismo, que explora o macro de um universo em que o micro é abordado pela película de Haneke. E este é o principal trunfo do filme, explorar as relações de poder aparentemente mais banais, as da família, em uma vila aparentemente sem expressão, onde moram pessoas aparentemente sem importância. Por trás das aparências e das banalidades, o banho de sangue que marcou a primeira metade do século XX. O longa retrata a vida simples de uma comunidade alemã do começo do século, batizado por Hobsbawn de A Era dos Extremos.

A Fita Branca é um grande incômodo, daqueles que faz você ficar se mexendo na cadeira sem saber direito os “o quês” e os “porquês”. Nada é explícito, nada é vulgar e o mal é tratado com todo o respeito que merece. A pontualidade e a sobriedade da direção de Haneke dão ao filme um tom de tratado sobre a maldade e sobre o totalitarismo, que é sutilmente aproximado da história. A narração anacrônica de um dos personagens envolvidos nos eventos é belíssima e dá o tom solene. A fotografia em preto e branco fecha o círculo.

Não vou me estender demais sobre o longa, prefiro fazê-lo quando estreiar oficialmente no Brasil e mais pessoas puderem assisti-lo. A Fita Branca, assim como O Anticristo, lida com o tema mais espinhoso que envolve a humanidade e dá margem a diversos entendimentos. De qualquer modo, estou embasbacado.

Logo comentarei O Fantástico Sr. Raposo e La Vida Loca.

Até mais!

1 comentário

Arquivado em 33ª Mostra

33ª Mostra Internacional: O PONTO VERMELHO & A REBELDE

O Ponto Vermelho

O Ponto Vermelho

Será possível aproximar as culturas do Japão e da Alemanha de forma original, sensível e sem se lembrar nem de longe da Segunda Guerra Mundial? A resposta afirmativa para essa pergunta está em um filme da Mostra Internacional de São Paulo: O Ponto Vermelho. Fui até a sala de exibição às cegas, sem saber o que esperar do filme, afinal, as sinopses a que temos acesso são menos elucidativas que bula de remédio. No fim das contas, isso acaba sendo legal, justamente pelas surpresas!

O longa conta a história de Aki, uma universitária japonesa que resolve ir à Alemanha para saber mais sobre a morte de seus pais, ocorrida há 18 anos. Na terra da cerveja, Aki vai conhecer uma família alemã que lhe dará abrigo e que tem muito mais a revelar. A partir daí, o filme, de poucos diálogos e muitos sentimentos, acerta ao aproximar pessoas tão diferentes e ao abordar questões de alta sensibilidade com maturidade. A direção sóbria e analítica de Marie Miyayama conduz o elenco competente através de um singelo drama pessoal e familiar.

A Rebelde

A Rebelde

Saí de O Ponto Vermelho e fui conferir o francês A Rebelde, do diretor Laurent Perreau, que conversou conosco antes do início da sessão. O cineasta, muito simpático e receptivo, ressaltou alguns aspectos do filme e nos chamou atenção para alguns quesitos técnicos, como a diversidade de tecnologias usadas nas filmagens, de acordo com o personagem em cena. O filme foca, principalmente, os conflitos de geração entre uma neta e um avô que moram juntos; a filmagem ressalta a contradição ao unir forma e conteúdo. A Rebelde também é uma ótima pedida, principalmente para quem é fã de conflitos familiares sinceros.

Hoje também conferi o super-esperado A Fita Branca, mas deixarei para comentá-lo em uma postagem especial. É só esperar.

Até mais!

Deixe um comentário

Arquivado em 33ª Mostra

33ª Mostra internacional: CINERAMA & SEDE DE SANGUE

Cinerama

Cinerama

Mais um dia de Mostra Internacional. As salas continuam cheias e o clima de São Paulo bem inebriado de Sétima Arte. Hoje vou assistir a mais três filmes, incluindo o esperado A Fita Branca, de Michael Haneke. Por hora, fico com os comentários sobre Cinerama e Sede de Sangue.

O primeiro filme é um festival de subjetividade, uma daquelas películas que você olha e a primeira coisa que pensa é “Whathehell?”. Vou ser sincero e admitir que não tenho subsídios para analisar o filme, mas após a sessão houve um rápido bate papo com a diretora portuguesa, Inês de Oliveira, que frisou várias vezes que fez uma obra extremamente aberta, para que cada um atribua o significado que lhe vier à mente. O resto das perguntas foram apenas cinéfilos tentado destilar seu saber.  De qualquer modo, Cinerama dividiu opiniões, pois muitos saíram da sala de exibição, outros dormiram durante filme todo e outros muitos aplaudiram ao fim da sessão.

Sede de Sangue

Sede de Sangue

Sede de Sangue me agradou bastante. Um filme sul-coreano excêntrico sobre vampirismo, logo depois da onda de Deixa Ela Entrar? Mesmo assim, o longa asiático se destaca pela bela fotografia, pelo profundo tratamento da temática e pela direção competente, que entrega um filme interessante e cheio de sutilezas; mais um filme sobre vampirismo que se sobressai ao modismo e que tem algo de verdade a dizer. Vemos a história de um padre que se submete a um experimento para desenvolvimento de uma vacina e, depois de uma transfusão de sangue, acaba não mais podendo sair ao sol… Destaque para a cena final, hilária! Ao fim da Mostra, pretendo comentar mais profundamente os filmes de que mais gostei e então analiso Sede de Sangue com mais cuidado.

Até mais!

1 comentário

Arquivado em 33ª Mostra

33ª Mostra Internacional: ERVAS DANINHAS e 500 DIAS

Ervas Daninhas

Ervas Daninhas

Hoje foi o primeiro dia da 33ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e eu fui conferir dois filmes bem concorridos, cujas  sessões estavam lotadas: Ervas Daninhas (Les Herbes Folles), de Alain Resnais e 500 Dias com Ela (500 Days of Summer), de Marc Webb. Apesar dos atrasos consideráveis nos dois filmes, tudo ocorreu bem e a bela projeção digital da Reserva Cultural fez jus à fotografia estonteante da película francesa, tão prejudicada no Festival do Rio. A Mostra acontece até o dia 05 de novembro e ainda há vários filmes a conferir!

Ervas Daninhas lembra muito Medos Privados em Lugares Públicos, filme anterior de Resnais e que está em cartaz até hoje em São Paulo. Nessas duas obras, o diretor vai fundo no retrato sensível e apurado dos sentimentos e conflitos de seus personagens. No entanto, devo confessar que Ervas Daninhas é um pouco mais excêntrico que Medos Privados, o que garante boas risadas, muitas incógnitas e várias sutilezas que passam despercebidas.  Mesmo assim, levanto algumas questões: estaria o diretor comparando o amor a algum tipo de batalha? Não seria a trama dos personagens  um quadro de reconhecimento no anonimato, de alteridade? Mais do que indicado, é um filme a ser assitido com disposição e a ser lentamente digerido.

500 Dias com Ela

500 Dias com Ela

500 Dias com Ela, muito esperado pelo mundo on-line dos nerds e compainha limitada, cumpre sua função e se revela uma boa opção. O filme é realmente engraçado e criativo, com várias tiradas sagazes e referências ao universo cult. Apesar de deslizar em alguns lugares comuns do gênero, no geral o roteiro apresenta soluções originais e consegue surpreender a audiência, que saiu com uma ótima impressão do longa.

Amanhã, O Embasbacado assistirá a Cinerama e Sede de Sangue e ogo tratá mais cobertura da Mostra até dia 05 de Novembro. Aliás, fui entrevistado pela Folha e o blog ganhou destaque nesta matéria aqui. Agradeço à Folha de São Paulo e à Martha Lopes pela oportunidade e pela credibilidade.

Até mais!

3 Comentários

Arquivado em 33ª Mostra

Crítica: DEIXA ELA ENTRAR (2008)

Deixa

Deixa

Já escrevi um pouco sobre esta obra-prima que é Deixa Ela Entrar em uma das postagens sobre o Festival Internacional de Terror, no qual assisti ao filme pela primeira vez. Graças ao sucesso nos festivais, o longa chegou aos cinemas e tem repetido a onda de elogios. A temática do vampirismo, em alta graças a Crepúsculo e True Blood, certamente impulsionou o filme que, no entanto, supera o modismo e se sobressai como um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. E não estou exagerando.

Deixa Ela Entrar é puro lirismo e prova cabal que o gênero terror produz pérolas que se imortalizam como filmes de primeira grandeza. O longa nos apresentar a Oskar, um retraído garoto de 12 anos que sobre bullying e a Eli, uma garota que tem 12 anos há muito tempo. Sim, ela é uma vampira mirim (que de inocente não tem nada…) recém-chegada  à vizinhança e que acaba por se tornar amiga de Oskar. Assim, enquanto a pacata cidade se assusta com uma série de crimes e Oskar enfrenta os valentões da escola, o menino e a vampira desenvolvem uma relação ambigua.

O ponto forte do longa é investir nas sutilezas, tão esquecidas pelo gênero ultimamente. A fotografia estática, o clima frio, as tomadas comtemplativas, o ritmo lento mas constante. Tecnicamente, Deixa Ela Entrar cumpre a cartilha ao dar vida a um roteiro brilhante, comandado pela direção competente do diretor Thomas Alfredson. Comandar dois atores tão jovens que atuam de forma tão singela e madura exige um talento que o diretor destila sagazmente.

Ela Entrar

Ela Entrar

Mas é a construção da história que culmina na perfeição alcançada pelo filme. A quantidade de detalhes e sutilezas torna impossível a compreensão da obra em uma única sessão ou por uma única pessoa. Muito do que apreciei do filme veio das conversas nas filas do festival após a sessão. Vou dar um exemplo que terá alguns spoilers, se não quiser ler, pule para o próximo parágrafo. Se repararmos bem no senhor que acompanha Eli, veremos que talvez não se trate de seu pai, como alguns críticos da grande mídia têm entendido, mas de seu amante, que possivelmente a conheceu na mesma idade de Oskar e envelheceu a seu lado. Várias sutilezas o denunciam. Os olhares de amor que desfere a Eli, o ciume que notadamente sente ao ver que a vampira está se relacionando com Oskar e a maneira que Eli o trata quando ele falha (o que também pode denunciar que a vampira não é um poço de bondade como se mostra a Oskar…)

Outro ponto forte do longa é apostar no vampirismo como uma grande metáfora de um humanisno profundo. Se superarmos o asco inicial à temática, com uma boa dose de alteridade, podemos notar que muitas das questões que se desenvolvem sob o foco do vampirismo são, na verdade, conflitos demasiadamente humanos. Para ficar em apenas um exemplo, cito a cena em que Oskar observa Eli trocar de roupa e olha rapidamente para suas genitálias, que simboliza todas angústias sexuais que envolvem a passagem da infância para a adolescência.

Deixa Ela Entrar é um acerto monumental, é poesia, é arte no estado puro, é algo que só o cinema pode nos entregar. Assistir ao filme é estar embasbacado por 110 minutos e sair do cinema com uma sensação de que a sétima arte ainda tem muito a oferecer para este mundo cinza em que vivemos. Só me lembro de Nietzsche nessas horas, afinal a Arte existe para que a verdade não nos destrua.

6 Comentários

Arquivado em Crítica