Arquivo do mês: novembro 2009

Crítica: JULIE & JULIA

Julia & Julia

Acompanhei a produção de Julie & Julia desde os primórdios, graças à admiração desmedida que tenho por Meryl Streep e que não é segredo para ninguém. Tive a oportunidade de conferir o filme na Mostra Internacional de São Paulo, mas preferi não fazê-lo para prestigiar os longas que nunca chegarão às telas brasileiras. Agora, com a estreia oficial do filme, pude conferir esse novo trabalho de Nora Ephron, que já trabalhara com Streep em A Difícil Arte de Amar e Silkwood.

Julie & Julia é um filme singelo e gostoso de se assistir. Baseado em duas histórias reais, o filme retrata o período em que a lenda da culinária Julia Child (Meryl Streep) ainda engatinhava na cozinha descobrindo sua paixão.  Quase cinquenta anos no futuro, Julie Powell (Amy Adams), infeliz com sua vida ordinária, resolve criar um blog e partilhar com o mundo sua experiência inusitada: cozinhar as 524 receitas do livro de Julia em 365 dias. Está pronto o cenário para receitas de dar água na boca.

Nora Ephron criou vários roteiros agradáveis de se assistir, alguns já imortais na categoria das comédias romanticas, como em Harry e Sally; em Julie & Julia a diretora/roteirista repete a dose. Ambas as histórias retratadas no longa são engraçadas, ao mesmo tempo inusitadas e banais e sempre sutis em suas insinuações. Além do mais, o roteiro cumpre a cartilha ao não dar predominância a nenhuma delas e manter-nos interessados tanto em Julie como em Julia. Singelo, divertido e ótimo para espairecer a cabeça antes de duas semanas de provas de final de semestre.

Meryl Streep e Amy Adams, apesar de não partilharem as telas (exceto pela TV…), repetem a dose de química já vista em Dúvida. Adams é simpática e fofucha, é uma boa atriz, mas ainda tem que comer um poquinho de feijão. Já Streep, nem precisava falar, está estupenda como sempre. Não vou chover no molhado e elogiá-la, mas só digo que ela conseguiu outra de suas proezas: imitar um sotaque inimitável. Recomendo a todos um video da verdadeira Julia Child para entender do que falo. Esse vídeo também serve para alguns que enxergaram a interpretação de Streep como quase caricata; na verdade, Julia era assim mesmo. Alô Academia, décima sexta indicação ao Oscar e, já está na hora, terceira estatueta para a rainha do cinema.

Julie & Julia vem no momento certo, ao acrescentar muitos ovos e manteiga em nossas vidas chatas e ascéticas, de calorias contadas e horas na academia. Essa relação de frieza e medo que desenvolvemos com nossos alimentos só tem a diminuir nossa riqueza civilizacional. Talvez o segredo para uma vida realmente saudável e feliz esteja em Julia Child: comer com prazer, amar o que faz e fazer muito sexo para gastar as calorias. Ninguém precisará de auto-ajuda.

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Crítica: ENTRE A LUZ E A SOMBRA

O corredor não tem fim...

Fui convidado para assistir ao documentário Entre a Luz e a Sombra, em uma sessão especial, e pude conferir de perto a obra que já levou vários prêmios internacionais. Fruto de uma câmera digital e de uma equipe de realização de uma  única pessoa, o projeto de Luciana Burlamaqui perscruta um tema complexo e intrigante: a realidade do crime, vista do ângulo do homem criminoso e do sistema prisional. Ao longo dos 159 minutos, acompanhamos Dexter e Afro-X, dois detentos do antigo Carandiru que formaram o grupo de rap 509-E, sucesso também fora das prisões. Também seguimos de perto a rotina de Sophia, uma atriz que desenvolvia o projeto “Talentos Aprisionados” na maior penetenciária da América Latina.

Seria possível desvendar as causas do crime? Seria possível detectar as frações de segundos que transformam um homem comum em criminoso? Será mesmo possível estabelecer alguma diferença entre os homens ditos normais e os ditos criminosos? Com que direito uma sociedade extremamente excludente pune seus cidadãos, jogando-os em celas superlotadas e besuntadas de esgoto? As mesmas questões que tanto incomodam quem se preocupa em refletir sobre esses assuntos são patentes no documentário, mas não é nas respostas que o projeto se sobressai.

Nesse sentido, não há nada de muito novo, a não ser os mesmos paradoxos que constroem os discursos a que estamos acostumados: o criminoso é predominantemente aquele que não teve oportunidades e que precisou entrar na vida do crime, mas, ao mesmo tempo, é completamente responsável pelos seus atos e, por isso, deve pagar pelo que fez.  No entanto, o sistema é extremamente injusto e punitivo, ao mesmo tempo em que nos presídios os detentos que fogem às regras dos próprios presos são mortos sem pestanejar. Já diria Dexter: “O sistema é cruel, é uma bosta, seja qual for. Precisamos destruir o sistema.” E depois, cara pálida? Estamos presos às mesmas questões há anos…

O grande mérito de Entre a Luz e a Sombra é denunciar várias hipocrisias e não se focar em categorias abstratas,  mas  em retratar o humano que existe em todos nós, presos ou não presos. Quando sobem os créditos, depois de 159 minutos convivendo com detentos brincando com crianças, atores e juízes humanistas, ninguém será capaz de estabelecer barreiras entre “nós” e “eles”. Afinal, partilhamos dos mesmos valores, queremos as mesmas coisas e amamos do mesmo jeito. E “nós”, os santos que nunca cometem delitos, somos capazes de assistir a programas que anunciam comida após mostrar dois presos sendo mortos por policiais. Né Gugu? No fim, todos vivemos entre a luz e a sombra.

Sem grandes respostas às perguntas que nos atormentam, Entre a Luz e a Sombra é uma grande oportunidade de reflexão, principalmente porque tem coragem de mostrar um depoimento de Sophia que coloca em risco todos os esforços daqueles que se preocupam com as condições do cárcere brasileiro. Quanto a grande questão de fundo, sobre o porquê de punir, mesmo após séculos de refinamento das teorias do Direito Penal, meu lado pessimista me diz que continuamos a fazer o que fazemos desde tempos remotos: punição como mera vingança. No fundo, todos somos o deputado estadual raivoso, com suas verdades simples que servem para garantir sua tranquila noite de sono. Só não se esqueça, nobre leitor, que do lado de lá dos muros há seres humanos. Por mais que tentemos negá-lo, continuarão  demasiadamente humanos.

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Crítica: 2012

2012

Existe alguma coisa mais legal que ver o mundo acabando? Acho que não. 2012 vale a pena só por isso, com seu apocalipse megalomaníaco. O diretor Roland Emmerich, depois encher o planeta de alienígenas em Independence Day e virar o clima de cabeça para baixo em O Dia Depois de Amanhã, criou algo ainda mais grandioso, mais exagerado e ainda mais divertido!

Mas já aviso que o filme só vai ser divertido se você não prestar atenção na incosistência do roteiro, no vazio dos personagens, nos clichês gritantes, no moralismo latente, nas atuações medianas e nas situações absurdas, que conseguem ser ainda mais inverossíveis que o próprio fim do mundo. Mas, quer saber, quem se importa? Entrar no cinema para assistir a 2012 é querer ver apenas o mundo explodir, o Cristo despencar (em uma cena de bem menos expressão do que esperávamos), ondas gigantes varrerem tudo em seu caminho. Exigir mais que isso é subverter a finalidade do filme.

2012 não traz absolutamente nada de novo, só um fim do mundo belíssimo. Deixando o senso crítico do lado de fora do cinema, certamente teremos uma divertida experiência nos 157 minutos de caos. Acho que nem consigo escrever mais alguma coisa sobre o filme.

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33ª Mostra Internacional: O DIA DA TRANSA & SINGULARIDADES

Singularidades

Singularidades... Ah, Eça...

Oficialmente, a Mostra Internacional já foi encerrada, restando apenas mais uma semana de repescagem, na qual podemos assistir a mais alguns filmes que tenhamos perdido. Infelizmente, com o final do semestre se aproximando, fica dificil continuar acompanhando a Mostra por mais uma semana. Vou apenas comentar o restante dos filmes a que assisti e ainda não postei comentários.

Singularidades de uma Rapariga Loura, do cineasta Manoel de Oliveira (101 anos de idade e energia!), peca em alguns aspectos cruciais, a começar pelo ritmo lento demais da película e pelo enfoque narrativo. Ainda assim, especialmente para quem se delicia com literatura portuguesa, o filme é uma boa pedida. Baseado em um conto de Eça de Queirós, o lúcido realista português, Singularidades vai fundo não apenas na crítica social, mas na análise minuciosa da ética pequeno-burguesa, cheia de contradições e de sombras perversas. Todos os elementos esperados estão por ali: o protagonista fraco, o idoso autoritário, as insinuações de homossexualidade reprimida, a vigilância da intimidade, os pudores demasiados. Ah, aquela janela e suas cortinas…

O Dia da Transa (Humpday) é uma comédia inteligentíssima, sincera e sensível. Ouvi comentários de que o filme é engraçado, mas não passa de uma nuvem, pois não ficará nas memórias. O ponto é que talvez ele nem isso pretenda. O tom do longa é a despretensão e é daí que nascem as grandes comédias. Dois amigos de época de faculdade se reencontram após muitos anos em que suas vidas tomaram rumos completamente opostos. Um se casou e estruturou a vida e o outro continua na onda de nerd cult bon vivant. Graças a um festival de pornô amador, os dois amigos resolvem gravar um filme pornô homossexual no qual ambos serão os protagonistas! Atuações afiadas, situações inteligentes, diálogos bem escritos, sentimentos verdadeiros, singeleza pura. E muita risada! Alguém quer mais alguma coisa?

Até mais!

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