Crítica: ENTRE A LUZ E A SOMBRA

O corredor não tem fim...

Fui convidado para assistir ao documentário Entre a Luz e a Sombra, em uma sessão especial, e pude conferir de perto a obra que já levou vários prêmios internacionais. Fruto de uma câmera digital e de uma equipe de realização de uma  única pessoa, o projeto de Luciana Burlamaqui perscruta um tema complexo e intrigante: a realidade do crime, vista do ângulo do homem criminoso e do sistema prisional. Ao longo dos 159 minutos, acompanhamos Dexter e Afro-X, dois detentos do antigo Carandiru que formaram o grupo de rap 509-E, sucesso também fora das prisões. Também seguimos de perto a rotina de Sophia, uma atriz que desenvolvia o projeto “Talentos Aprisionados” na maior penetenciária da América Latina.

Seria possível desvendar as causas do crime? Seria possível detectar as frações de segundos que transformam um homem comum em criminoso? Será mesmo possível estabelecer alguma diferença entre os homens ditos normais e os ditos criminosos? Com que direito uma sociedade extremamente excludente pune seus cidadãos, jogando-os em celas superlotadas e besuntadas de esgoto? As mesmas questões que tanto incomodam quem se preocupa em refletir sobre esses assuntos são patentes no documentário, mas não é nas respostas que o projeto se sobressai.

Nesse sentido, não há nada de muito novo, a não ser os mesmos paradoxos que constroem os discursos a que estamos acostumados: o criminoso é predominantemente aquele que não teve oportunidades e que precisou entrar na vida do crime, mas, ao mesmo tempo, é completamente responsável pelos seus atos e, por isso, deve pagar pelo que fez.  No entanto, o sistema é extremamente injusto e punitivo, ao mesmo tempo em que nos presídios os detentos que fogem às regras dos próprios presos são mortos sem pestanejar. Já diria Dexter: “O sistema é cruel, é uma bosta, seja qual for. Precisamos destruir o sistema.” E depois, cara pálida? Estamos presos às mesmas questões há anos…

O grande mérito de Entre a Luz e a Sombra é denunciar várias hipocrisias e não se focar em categorias abstratas,  mas  em retratar o humano que existe em todos nós, presos ou não presos. Quando sobem os créditos, depois de 159 minutos convivendo com detentos brincando com crianças, atores e juízes humanistas, ninguém será capaz de estabelecer barreiras entre “nós” e “eles”. Afinal, partilhamos dos mesmos valores, queremos as mesmas coisas e amamos do mesmo jeito. E “nós”, os santos que nunca cometem delitos, somos capazes de assistir a programas que anunciam comida após mostrar dois presos sendo mortos por policiais. Né Gugu? No fim, todos vivemos entre a luz e a sombra.

Sem grandes respostas às perguntas que nos atormentam, Entre a Luz e a Sombra é uma grande oportunidade de reflexão, principalmente porque tem coragem de mostrar um depoimento de Sophia que coloca em risco todos os esforços daqueles que se preocupam com as condições do cárcere brasileiro. Quanto a grande questão de fundo, sobre o porquê de punir, mesmo após séculos de refinamento das teorias do Direito Penal, meu lado pessimista me diz que continuamos a fazer o que fazemos desde tempos remotos: punição como mera vingança. No fundo, todos somos o deputado estadual raivoso, com suas verdades simples que servem para garantir sua tranquila noite de sono. Só não se esqueça, nobre leitor, que do lado de lá dos muros há seres humanos. Por mais que tentemos negá-lo, continuarão  demasiadamente humanos.

3 Comentários

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3 Respostas para “Crítica: ENTRE A LUZ E A SOMBRA

  1. Interssante, vou procurar assistir

  2. É bem legal. Pra quem se interessa pelo assunto, vale a pena conferir.

  3. Seria interessante que todos apreciassem o manifesto que o Dexter, um dos protagonistas do filme produziu frente a produção.
    O mesmo encontra-se em http://www.oitavoanjodexter.blogspot.com
    Paz!

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