Crítica: AMOR SEM ESCALAS (2009)

Amor Sem Escalas

Ryan Bingham vive nas alturas. No último ano, passou 322 dias viajando de American Air Lines. Esse estilo de vida pouco convencional e que desafia o senso comum lhe rendeu uma existência solitária e inúmeros cartões de preferências de empresas diversas. A nós, rendeu um belo filme de um diretor talentoso que desponta como um dos maiores nomes para os próximos anos.

Amor sem Escalas deve ser lido a partir de seu nome em inglês, Up in the Air, que em tradução livre para o português significa “nas alturas”. Ryan (George Clooney no melhor papel de sua carreira) vive nas alturas, mas vive também em uma época em que o desemprego vai às alturas graças à crise econômica que se fez conhecer nos últimos meses. Ironicamente, Ryan viaja pelo país demitindo pessoas (no filme, na maior parte das cenas, são interpretadas por pessoas que realmente perderam seus empregos) e tentando lidar com elas nos momentos de desespero que seguem à demissão. Sua vida inusitada vai sofrer alguns abalos quando a jovem Natalie (Anna Kendrick, apenas bem) tentar revolucionar o ramo das demissões e ao conhecer Alex, magistralmente interpretada por Vera Farmiga.

A dramédia bem amarrada agrada de todos os lados. O desenvolvimento do roteiro (adaptado de um romance) é inteligente e recheado de diálogos perspicazes e bem construídos. Mesmo nas situações limites, nas quais a história poderia facilmente pender para clichês ou lugares comuns, os desfechos são surpreendentes ou bem desenvolvidos.  A direção precisa de Jason Reitman e a atuação inspirada do trio principal completam o longa que nos mantém presos a essa história pouco comum, o que já é um grande feito.

Mas o que está por trás da filosofia barata de Ryan Bingham?

A modernidade trouxe um medo profundo da solidão. São poucos os seres humanos que conseguem passar algum tempo sozinhos. Falo em permanecer calado, com celulares e computadores desligados, nada de mensagens, telefones ou scraps brilhantes. Somente os sons do silêncio sepulcral. Em uma época de pessoas vazias, estar só é estar mal acompanhado. É melhor se encher de pessoas barulhentas à nossa volta que encarar o espelho do quarto vazio. E, no fundo, na rotina frenética, nem mesmo essas pessoas estarão lá de verdade. Sozinhos na multidão, vivemos nas alturas, longe do mundo real. Na vertigem na impermanência, transformamos nossa vida em uma correria com o único propósito de não pararmos  e encararmos a nós mesmos. Não somos tubarões, Ryan, mas corujas. Ao menos deveríamos sê-lo.

Com um show à parte da soberba Vera Farmiga, Amor Sem Escalas traz ar fresco das alturas e das nuvens das quais aterrisa nos cinemas. Apesar de seu terço final pender para o conservadorismo (assim como Juno, o filme anterior de Reitman), o longa acerta na maior parte de suas proposições e inova no tratamento dado à questão feminina que se desenvolve na trama concernete à Alex. Rápido, preciso, inovativo e simpático, o filme agrada facilmente e traz belas reflexões das mais variadas correntes. Se não estiver passando em sua cidade, pegue um voo, aproveite as alturas e assista no cinema mais próximo.

Ah, e destaque para as legendas nas músicas e para os créditos, nos quais um recém-desempregado oferece sua composição para figurar no filme, o que realmente ocorre. É a música que toca justamente nos créditos finais.

 

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