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Crônica

Cinema e o Épico Moderno

Épico

Épico

Ir ao cinema tem se tornado uma das mais difíceis experiências pela qual um ser humano pode passar, sem contar o fato de ter que percorrer oito estações lotadas de metrô, entre vírus H1N1 e pessoas mal-humoradas, provavelmente chegar atrasado à estação e correr como um louco para chegar a tempo. Se conseguir sobreviver a tudo isso e encontrar um ingresso, me sentarei em uma confortável poltrona, que simpaticamente carrega um chiclete que grudará em minha calça. Atrás de mim, um belo casal apaixonado e, à frente, dois amigos conversadores, discutindo a influência de Tarkovsky na estética do cinema iraniano. Ao meu lado, uma carinhosa mãe e seu pequeno Édipo.  As luzes diminuem de intensidade e, voilà, um comercial de carros, outro de hotéis e um terceiro sobre supermercados. Como se não bastasse, cinco minutos de propaganda do próprio cinema e das eficientes regras de segurança rendem uma experiência cultural sem tamanho. O jovem casal já se beija ternamente, e a dupla à minha frente resolve discutir cinema brasileiro e retrato das favelas cariocas.

Os trailers começam, mas os atrasados estão chegando. Um trailer interessante chama a atenção, mas não consigo vê-lo porque um atrasado não consegue enxergar os degraus e parou no meio da escada para escolher seu lugar. Há várias cadeiras vazias, mas ele sabiamente elege uma na minha fileira. O espaço é mínimo, e ele tem que passar: grudo as costas no encosto, enfio os pés debaixo da poltrona, torço as pernas e seguro o ar. Ele se senta e eu ganho um estiramento muscular.

O filme começa, o logo do estúdio aparece na tela e os cinéfilos à frente resolvem discutir a história do cinema sob a ótica crítica dos anos oitenta. Quando as primeiras legendas aparecem, o pequeno Édipo começa a reclamar que não está conseguindo acompanhar e sua mãe Jocasta começa a resumir as cenas para ele. O casalzinho não consegue mais segurar os ânimos. O menino, inexperiente coitado, acha que vai copular ali mesmo e, na ânsia de subir em cima da amada, começa a chutar minha cadeira. Pá. Pum. Pá.

Antigamente o cinema era escuro, hoje não mais. O atrasado, provável bussiness man, quer saber o horário e abre seu celular holofote ofuscante que demora quase 1 minuto para se apagar. A dupla de homens letrados resolve escrever uma mensagem para alguém no meio do filme, o que rende mais alguns minutos de cinema ao sol do meio dia. O pequeno Édipo está agitado. Por que raios alguém traz uma criança num filme legendado? Pá. Pum. Pá. Pum. Os chutes ficam mais fortes à medida que a coisa esquenta lá atrás. A trilha sonora do filme compete com os gemidos do casal.

Depois de narrar o filme por mais de uma hora, Jocasta resolve tirar pequeno Édipo, já chorando sem parar, do cinema e nos traz um pouco de paz. Doce engano. Cena dramática, silêncio no filme, só os olhares dos atores preenchem as salas… Musiquinha de balada, é o celular do bussiness man tocando. Não sei por que me surpreendo, mas o indivíduo atende a geringonça e começa a discutir a cotação da bolsa. A dupla de cinéfilos começa a disputar entre si quem entende mais de cinema e quem vai adivinhar primeiro o fim do filme. Pá. Pum. Pá. Pápá. Pápápápápápápápá. O casal lá atrás chegou ao êxtase e minha poltrona virou cadeira de massagem. Perco a paciência. Dá pra parar de chutar a porra da minha cadeira?! Será que vocês podem destilar seus saberes outra hora?! Até que horas você vai falar na merda desse celular?! Silêncio total. Finalmente poderei assistir ao filme em paz. Não desta vez. As luzes se acendem e o letreiro enche a tela.

Por que, mesmo assim, faço questão de ir ao cinema toda semana, sem falhar? Logo mais conversaremos sobre isso.

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Entre Margo e Margot

Margo e Eve. Detalhe ao fundo: Marilyn Monroe

Margo e Eve. Detalhe ao fundo: Marilyn Monroe

Disque M para Matar a Malvada

Com o perdão da pobre assonância,  esses dias assisti a dois clássicos, no sentido maior da palavra, do cinema: A Malvada (1950) e Disque M para Matar (1954). O primeiro, indicado a 14 Oscar (feito que só Titanic conseguiria 47 anos depois), um suspense de diálogos cortantes e cheios de referências. O segundo,  obra do mestre do suspense, Alfred Hitchcock. Separando Margo Channing (Bette Davis) e Margot Wending (Grace Kelly) há mais que apenas 4 anos da História do Cinema, há toda uma concepção diversa de bons filmes. Não há que se fazer crítica de tais filmes, imortalizados por sua própria excelência, mas apenas apontar os caminhos que os tornaram clássicos.

A Malvada aposta em personagens esféricos e complexos e disserta sobre temas variados. Margo Channing carrega um mundo todo por trás dos olhos de Bette Davis, um dos mais expressivos que o Cinema já conheceu. Anne Baxter nos entrega Eve Harrington no ponto certo, oscilando entre a inocência e maldade que seu papel de anti-heroína exige.  Aliás o título original do filme é um trocadilho: All about Eve (Tudo sobre Eve) tem o som muito parecido com All about Evil, que significa Tudo sobre o mal. Contando com diálogos muito inteligentes e cheios de refências à história do Cinema e do Teatro, A Malvada possui um roteiro brilhante e cheio de sutilezas (como na cena em que Eve conversa DeWitt no banheiro) que os transporta a um mundo onde Hollywood começava a se tornar um gigante.

Disque M para Matar, que já traz o peso das mãos de Hitchcock, se desenvolve por um caminho diferente, mas igualmente avassalador. Suspense policial e adaptado do teatro, a ação se desenrola praticamente dentro de um único cômodo, o que torna o filme dependende dos diálogos e da tensão natural da situação que vemos. E nisso Hitchcock é o mestre. Não há tempo para aprofundar personagens, é verdade, mas a engenhosidade do roteiro e da direção consegue nos prender à história do começo ao fim e, de repente, todos os detalhes fazem sentido e compõe um maravilhoso quadro. Hoje, vivemos em tempos que o suspense exige música alta e situações perigosíssimas para prender a audiência. Hithcock consegue o mesmo efeito sem recorrer a tais malabarismos.

O que há entre Margo (1950) e Margot (1954) além da Guerra da Coreia? Há uma grande diferença da maneira de fazer bons filmes. De um lado, personagens esféricos, conflitos humanos e atores poderosos. De outro, roteiro intrincado, suspense policial e ação pautada em diálogos que, pouco a pouco, revelam o conteúdo do filme. Nesse sentido, A Malvada é conteudo e forma em equlíbrio perfeito;  Disque M para Matar é pura forma que, bem trabalhada, cria um belo conteudo. Paradoxal? Talvez, mas recomendo muito assistir aos dois para entender do que falo.

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Entre o Crepúsculo e a Aurora

Crepúsculo

Desde quando iniciei esse blog, venho fazendo críticas de cinema. Sempre deixei claro, no entanto, que pretendia dar um enfoque diferenciado a meus textos, fugindo da mesmice das críticas que podemos encontrar em qualquer jornal. Essa é uma tendência que venho notando entre os blogs, as tentativas de fugir dessa padronização, alguns em maior tom, outros em menor. Mas para refletir sobre essa tendência, uma questionamento fundamental é necessário: o que raios é uma crítica?

Em linhas gerais, a crítica artística é um exercício racional sobre determinado tema da esfera cultural, visando objetivar percepções subjetivas. Belas palavras. O que o ocorre, na verdade, é que as críticas formam um imenso mercado ao lado da própria da Arte, às vezes ganhando maior projeção que seu próprio objeto. Nesse sentido, durante muitas décadas, a crítica cinematográfica ganhou credibilidade e poder a ponto de influenciar a decisão de um indivíduo ir ou não ao cinema. Essa realidade contém uma contradição básica: por mais objetiva e bem realizada que uma crítica seja, ela nunca pode substituir a experiência estética que o indivíduo possui. Assim, aconselhar ou desaconselhar alguém a ir no cinema por meio de um texto é uma incoerência gigantesca.

Valendo-me das palavras do mestre Rubem Alves, críticas são palavras e “palavras que ensinam são gaiolas para pássaros engaioláveis”. Ocorre que a Arte é sempre um pássaro em voo, nunca preso pelo poder da razão.  Engaiolar a  Arte é decretar sua sentença de morte. Assim, tentar ensinar alguém a como sentir um filme é impossível. Não se pode ensinar a beleza, pois o belo só se sente no íntimo de cada um. Quem nunca foi o único a chorar em um filme ou o chato que não se emociou junto a todos?

Nesse contexto, a crítica cinematográfica toma outros moldes, que é a discussão de temas que estão em seu escopo: as técnicas de se fazer cinema e as ideias por trás delas. Isso pode ser discutido, afinal estamos falando em uma realidade objetiva, ou seja, o trabalho concreto de construção de um filme. Esse trabalho (edição, fotografia, direção e afins) pode ser analisado à luz da razão, pois há parâmetros para tal empreitada. Mais que isso, é possível assumir uma tendência a um caminho reflexivo nas análises de cinema, levantando discussões pertinentes à realidade em que vivemos. Assim, ao invés de tentar roubar a experiência estética de quem assiste a um filme, podemos aproveitá-la para expandir o alcance da obra. Deixa-se de lado a tentativa de engaiolar a Arte para extendê-la ao máximo.

Estamos entre o crepúsculo de uma época em que críticos dão notas a filmes e a aurora de um tempo em que filmes são discutidos em sua extensão pela realidade. Só haverá espaço para a crítica se houver reconhecimento de que não se discute beleza, mas técnica. O modo como se faz um filme e seus questionamentos podem ser discutidos, sua beleza não. Não há mais espaço para roubar os sentimentos alheios.  Se os grandes autores de críticas insistirem em tentar reduzir as experiências estéticas à mera racionalidade, correremos o risco de criar um mundo paralelo onde o expectador comum não consegue se enxergar. Dentro dessa perspectiva, saúdo a todos os apreciadores de cinema que, como eu, estão presos a este delicioso vício de discutir a Arte.

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