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Crítica: UMA NOITE EM 67

Uma noite em 67

Uma tarde em 2010, um cinema com público modesto e um rapaz com absolutamente nenhum motivo especial para apreciar as canções da música popular brasileira, não fosse a mera coincidência de um dia ter podido se encantar com o poder de certas letras e melodias.  Falam do francês e do inglês como línguas de bela sonoridade, mas se esquecem da majestade que nossa última flor do Lácio é capaz de inspirar nas mãos de uns poucos artíficies espalhados pela música e pela literatura. Não se explica esse tipo de sentimento, quem gosta sabe.

Uma Noite em 67 retrata um período tido como dos mais criativos da música brasileira que convive com o torpor, que ainda nos ronda, de uma maioria alienada ou conivente da população. O público que apreciava a beleza das canções do Festival da Record era o mesmo que caminhava em paz para casa enquanto nos porões da ditadura o belo conhecia sua mais poderosa antítese. Haverá tal coisa como o espírito de um povo?

É até difícil analisar Uma Noite em 67 como documentário com os jovens Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo, Roberto Carlos, Rita Lee, entre outros, embalando canções que já são parte do imaginário nacional. As belas imagens conservadas pela TV Record, a apresentação integral das canções vencedoras, o público como personagem autônomo, às vaias ou aos aplausos, e as entrevistas sinceras com os artistas constróem uma experiência nostálgica e poderosa. Se o jovem que vos escreve esqueceu-se por um momento da ditadura militar e desejou voltar no tempo, aqueles que cresceram na época serão fisgados no coração pelo documentário. O formato é plano, mas quem se importa?

Uma Noite em 67 é obrigatório para aqueles que apreciam música popular brasileira e as histórias desse país. Aliás, o documentário poderia ser exibido em todas as escolas: ninguém é obrigado a gostar de MPB, mas todo mundo deve ter uma chance de se apaixonar por ela. Não perca!

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Crítica: ENTRE A LUZ E A SOMBRA

O corredor não tem fim...

Fui convidado para assistir ao documentário Entre a Luz e a Sombra, em uma sessão especial, e pude conferir de perto a obra que já levou vários prêmios internacionais. Fruto de uma câmera digital e de uma equipe de realização de uma  única pessoa, o projeto de Luciana Burlamaqui perscruta um tema complexo e intrigante: a realidade do crime, vista do ângulo do homem criminoso e do sistema prisional. Ao longo dos 159 minutos, acompanhamos Dexter e Afro-X, dois detentos do antigo Carandiru que formaram o grupo de rap 509-E, sucesso também fora das prisões. Também seguimos de perto a rotina de Sophia, uma atriz que desenvolvia o projeto “Talentos Aprisionados” na maior penetenciária da América Latina.

Seria possível desvendar as causas do crime? Seria possível detectar as frações de segundos que transformam um homem comum em criminoso? Será mesmo possível estabelecer alguma diferença entre os homens ditos normais e os ditos criminosos? Com que direito uma sociedade extremamente excludente pune seus cidadãos, jogando-os em celas superlotadas e besuntadas de esgoto? As mesmas questões que tanto incomodam quem se preocupa em refletir sobre esses assuntos são patentes no documentário, mas não é nas respostas que o projeto se sobressai.

Nesse sentido, não há nada de muito novo, a não ser os mesmos paradoxos que constroem os discursos a que estamos acostumados: o criminoso é predominantemente aquele que não teve oportunidades e que precisou entrar na vida do crime, mas, ao mesmo tempo, é completamente responsável pelos seus atos e, por isso, deve pagar pelo que fez.  No entanto, o sistema é extremamente injusto e punitivo, ao mesmo tempo em que nos presídios os detentos que fogem às regras dos próprios presos são mortos sem pestanejar. Já diria Dexter: “O sistema é cruel, é uma bosta, seja qual for. Precisamos destruir o sistema.” E depois, cara pálida? Estamos presos às mesmas questões há anos…

O grande mérito de Entre a Luz e a Sombra é denunciar várias hipocrisias e não se focar em categorias abstratas,  mas  em retratar o humano que existe em todos nós, presos ou não presos. Quando sobem os créditos, depois de 159 minutos convivendo com detentos brincando com crianças, atores e juízes humanistas, ninguém será capaz de estabelecer barreiras entre “nós” e “eles”. Afinal, partilhamos dos mesmos valores, queremos as mesmas coisas e amamos do mesmo jeito. E “nós”, os santos que nunca cometem delitos, somos capazes de assistir a programas que anunciam comida após mostrar dois presos sendo mortos por policiais. Né Gugu? No fim, todos vivemos entre a luz e a sombra.

Sem grandes respostas às perguntas que nos atormentam, Entre a Luz e a Sombra é uma grande oportunidade de reflexão, principalmente porque tem coragem de mostrar um depoimento de Sophia que coloca em risco todos os esforços daqueles que se preocupam com as condições do cárcere brasileiro. Quanto a grande questão de fundo, sobre o porquê de punir, mesmo após séculos de refinamento das teorias do Direito Penal, meu lado pessimista me diz que continuamos a fazer o que fazemos desde tempos remotos: punição como mera vingança. No fundo, todos somos o deputado estadual raivoso, com suas verdades simples que servem para garantir sua tranquila noite de sono. Só não se esqueça, nobre leitor, que do lado de lá dos muros há seres humanos. Por mais que tentemos negá-lo, continuarão  demasiadamente humanos.

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